Especulações sobre Cultura Contemporânea
Apresentação
Este texto pretende introduzir, mesmo que resumidamente, alguns sintomas de construção simbólica e práticas sociais que poluem, na contemporaneidade, o imaginário coletivo do brasileiro. Tal perspectiva será administrada com indiferença a historiografia convencional; não pela falta de relevância cientifica1; mas porque entendemos que esta se disfarça (ainda) sob uma espécie de condicionamento colonialista. Uma série de equívocos que não terminam no limite da própria história, mas que contaminam o terreno geral do político.
Do canibalismo ao primitivismo conformista; da mentalidade colonizada e oprimida; eclipsada pela televisão e pelo subcinema comercial, discutiremos as tensões entre nossa cultura e a “cultura civilizada”. E para não entrarmos na circularidade apocalíptica que reproduzimos infantilmente quando nos olhamos no espelho, prefiro situar um outro elemento: o Carnaval; que longe da visão antropológica de Roberto da Matta2, se coloca, aqui, como estratégia de disfarce, como signo arbitrário; que agora subverte a arte (pela falta de regra fundamental e, ao mesmo tempo, pela estetização geral); a música (o fim das vanguardas musicais pelo oportunismo fonográfico); a história (a morte do real pelo virtual3); a antropologia (a tradição como mercadoria exótica); a sociologia (a ordem social como ordem estatística; apenas o discurso de uma cidade invisível – lembremo-nos de Ítalo Calvino4 – sobrevive como explicação para a barbárie social).
Logo, apesar de propor uma outra hierarquia social pelo riso e pelo grotesco, o discurso carnavalesco se esgota na própria ambigüidade; e aí como via de manutenção do status quo; corrosão que se dá apenas no nível da linguagem como instrumento de dominação. Sistema que nos ajudará, talvez, a pensar essas relações, como diz Pierre Bourdieu5, numa espécie de “microcosmos de luta de classes”.
Notas
1 A questão da subjetividade, da verossimilhança e da linguagem observadas como capital simbólico do historiador que, na própria estrutura do campo em que se produz e reproduz a sua crença, subverte fenômeno histórico. Sem deixar de manter, no entanto, sua base analítica, a mediação se dá; vítima da consciência social do meio e de uma espécie ortodoxia epistemológica.
2DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro. Rocco, 6ªEdição, 1997.
3Sobre isso ver: BAUDRILLARD, Jean. A Ilusão Vital; tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2001.
4CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis; tradução de Diogo Mainardi. São Paulo. Companhia das Letras, 1990.
5BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004.
A questão antropofágica
Recuperamos o canibal como matriz de oposição simbólica ao etnocentrismo e, ao mesmo tempo como personagem vulnerável porque faminto aos encantos da realidade opressora. Ensaiado por Oswald de Andrade6 como o ícone de uma postura independente, crítica, irreverente ante a condição submissa que se encontrava o Brasil, tal orientação estética e ideológica se encontra, agora, em transe. Fome que continuamos a tê-la; sempre disfarçada por exposições carnavalescas e fórmulas fáceis de sucesso. O jogo da alteridade, antes tido como rebelião imaginária (vemos a literatura7); reação anticolonialista que nos libertaria de nossa condição submissa pela “devoração do outro”, se encontra, hoje, sem nenhuma perspectiva porque sufocada pela razão burguesa; grande mantenedora de uma visão relativa da cultura popular; esta descrita e definida pela “mestiçagem”; espécie de fantasia; máscara para ocultar o fantasma do corpo estilhaçado que nos sustenta.
Índios, escravos, sem-terras, flagelados e desempregados; todos nós coadjuvantes de um mundo fictício, observamos através da linguagem, da licença e do abuso, o nosso cotidiano simulado através mitos eróticos e políticos. O instinto antropofágico que outrora serviria como terapêutica; remédio drástico mas salvador da convalescença intelectual do país foi subtraído, não como força emancipável mas como “... luta propriamente simbólica (...), reproduzindo de forma transfigurada o campo das posições sociais8”. Vemos, portanto, que o mundo oficial, aquele mesmo a nos devorar em carne e osso (pela dominação econômica), é o mesmo a nos lançar num ambiente de dominação simbólica. Através de estratégias de controle e de disfarce, somos a ficção dada pelo outro.
Enquanto a cultura não for revolucionada, continuaremos a ter nossa miséria moral sempre disfarçada ideologicamente por estratégias que, segundo Marilena Chaui9, “não fornece aos homens o conhecimento da sua estrutura social, mas justifica o sistema pelo que ele é, através de uma falsa consciência”.
Notas
6Ancorado no Movimento Modernista Brasileiro, o poeta, romancista e ensaísta, Oswald de Andrade, (1890-1954) apostou no Manifesto Antropofágico (1928) como “Metafísica Bárbara”; “mistura de imagens, conceitos, provocação polêmica, irreverência à intuição da história. A prática do canibalismo, a devoração antropofágica é o um misto de insulto e sacrilégio contra um inimigo de muitas faces. São eles: o aparelhamento colonial político-religioso repressivo sob que se formou a civilização brasileira, a sociedade patriarcal com seus padrões morais de conduta, as suas esperanças messiânicas, a retórica de sua intelectualidade, que imitou a metrópole e se curvou ao estrangeiro, o indianismo como sublimação das frustrações do colonizado, que imitou atitudes do colonizador”. Ver mais sobre isso em: ANDRADE, Oswald de. Obras Completas: Do Pau-brasil à Antropofagia e às Utopias. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1970.
7Também produto do antropofagismo, Macunaíma (1928) representa no literário a sátira contra a mesmice; onde o lirismo, a mitologia e o folclore misturam-se através de um linguajar popular. Mário de Andrade (1893-1945) utiliza traços do Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo, sobrepostos às raízes da cultura brasileira. Ver: ANDRADE, Mario de. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter; texto revisto por Telê Porto Ancona Lopez. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro. Livraria Garnier, 32ªEdição, 2001.
8BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004, p.11.
9CHAUI, Marilena de Souza. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 3ªEdição, 1980, 25.
A questão tropicalista
O movimento tropicalista10 se afirmou, no final dos anos 1960, como reedição do Antropofagismo oswaldiano, fruto de uma consciência social, depois política e econômica, combinada com exigências estéticas e morais. Através da paródia e do deboche encontrou na música e em outras artes como Tropicália11– escultura de Helio Oiticica e na peça O Rei da Vela12 – de Jose Celso Martinez (alguns exemplos), a sua forma de expressão e contracultura. Fonte de experimentação que, se por um lado nos livrou das manias européias, por outro nos ajuda a rediscutir, hoje, o exotismo formalizado como percepção imediata de nossa cultura. Para o “discurso oficial” somos uma síntese da multiculturalidade romântica herdada sob a piedade colonialista dos jesuítas; para os intelectuais essa diferença só pode ser “resolvida” pelo seu diferencial irônico; ou seja, pelo jogo violento da sedução e da devoração. Será uma lei? A teoria do exotismo será ética, estética, uma filosofia, uma arte de viver, uma visão de mundo?
Vemos que predominante não é o regime da diferença e da indiferenciação, é o da incompreensibilidade eterna; estranheza irredutível das culturas, dos rostos e das linguagens. O tropicalismo revela esse diagnóstico porque nos lança no pânico carnavalesco do Brasil; lugar onde “a bossa e a palhoça”13 convivem juntas. Surrealismo tropical em que, impor-se um conceito de cultura (apenas), torna-se impossível por qualquer via; a não ser a do poder de quem a nomeia, repetindo o gesto de dominação.
O exótico no Brasil é, antes de tudo, um discurso travestido; mito romântico da democracia racial que subverte o político, o social, o tecnológico, o cultural, o espiritual, o sexual. A sociedade primitiva ainda não tirou suas máscaras e nem a sociedade burguesa se livrou de seus espelhos; o que sobreviveu foi uma predestinação arbitrária, uma espécie de abuso. Apenas sedução; excesso do outro e da alteridade, vertigem do mais diferente que o diferente.
Enquanto a cultura for observada de maneira residual, ou seja, ignorando as contradições políticas e histórico-sociais sob uma perspectiva de luta de classes, estaremos condenados pelo vício da legitimidade absurda dentro da experiência comum. Por isso, entendemos que o exótico - signo que se desloca no campo semântico da racionalidade, deve seguir um outro paradigma cultural que não seja mais o da resistência (universalidade abstrata) e sim o da revolução.
Notas
10Ver mais sobre isso em: VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo. Companhia das Letras, 1997.
11O termo Tropicália nasce como nome da obra de Hélio Oiticica (1937-1980) exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, em abril de 1967. O uso de signos e imagens convencionalmente associados ao Brasil não tem como objetivo figurar uma dada realidade nacional - tarefa que mobilizou parte de nossa tradição artística -, mas, nos termos do artista, objetivar uma imagem brasileira pela "devoração" dos símbolos da cultura brasileira. A idéia da "devoração", nada casual, remete diretamente à retomada da antropofagia e ao modernismo em sua vertente oswaldiana, da qual se beneficia a obra de Hélio Oiticica.
12A estréia de O Rei da Vela, em 1967, teve o mérito de incorporar Oswald de Andrade, com um texto publicado em 1937, à História do Teatro Brasileiro, e de ser o arauto de um movimento batizado como tropicalismo, de repercussão em outras artes.
13Os termos Bossa e Palhoça, utilizados na Música Caetano Veloso, sintetizaram na canção “Tropicália”, conversas e discussões estéticas que vinha tendo com Gil, com seu empresário Guilherme Araújo, com a cantora (e sua irmã) Maria Bethânia, com o poeta Torquato Neto e o artista gráfico Rogério Duarte. O resultado foi uma espécie de colagem poética, que traçava uma alegoria do Brasil através de seus contrastes. Quem sugeriu o título “Tropicália” para essa canção foi o fotógrafo (mais tarde produtor de cinema) Luís Carlos Barreto, que ao ouvi-la, no final de 1967, lembrou da obra homônima que o artista plástico Hélio Oiticica expusera no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, alguns meses antes.
Conclusão
Mesmo sabendo que o nosso projeto como nação política deva conter como princípio à superação de heranças ideológicas e estruturais de fundo deformador, cumpre-nos ao mesmo tempo manter a necessária clarividência crítica para buscarmos distinguir e preservar, dos matizes de ancestralidade, os traços positivos que conferem a nossa cultura o seu caráter definidor, a sua maturação de consciência, a sua dignidade afirmadora. A arte nova e a literatura nova têm a obrigação de saber que toda a criação, não obstante a sua modernidade, a sua novidade, está sempre apoiada numa linha de tradição, elemento dinâmico a mover e impulsionar o processo estético; e que, ao mesmo tempo, este processo tem que ser observado dialeticamente. Se a nossa arquitetura se exporta, se a nossa ficção hoje se exporta, se a nossa poesia hoje se exporta, se o nosso cinema e a nossa música hoje se exportam, é porque estamos exportando com a nossa arte a nossa própria expressão nacional, a qualidade – mais do que a novidade – do nosso modo de ser como povo, como nação. Soubemos, com o modernismo, reavivar a linha de tradição da inventividade, da abertura a formas que nos legou o barroco. E a nossa responsabilidade como artista paradoxalmente adulto, num país subdesenvolvido como o Brasil, nos prescreve uma atitude de permanente consciência crítica, consciência tanto diante da realidade, quanto da dignidade afirmadora de nossa própria identidade. E só estaremos exercendo esta consciência enquanto formas capazes de reinventar e revolucionar. Uma crítica exercida não apenas sobre a linguagem, mas principalmente sobre a realidade de que ela emerge, que ela exprime, que ela denuncia, realidade que cabe ao artista auxiliar a modificar com a ação sempre renovadora da arte verdadeiramente inventiva.
Bibliografia
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro. Rocco, 6ªEdição, 1997.
VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo. Companhia das Letras, 1997.
Este texto pretende introduzir, mesmo que resumidamente, alguns sintomas de construção simbólica e práticas sociais que poluem, na contemporaneidade, o imaginário coletivo do brasileiro. Tal perspectiva será administrada com indiferença a historiografia convencional; não pela falta de relevância cientifica1; mas porque entendemos que esta se disfarça (ainda) sob uma espécie de condicionamento colonialista. Uma série de equívocos que não terminam no limite da própria história, mas que contaminam o terreno geral do político.
Do canibalismo ao primitivismo conformista; da mentalidade colonizada e oprimida; eclipsada pela televisão e pelo subcinema comercial, discutiremos as tensões entre nossa cultura e a “cultura civilizada”. E para não entrarmos na circularidade apocalíptica que reproduzimos infantilmente quando nos olhamos no espelho, prefiro situar um outro elemento: o Carnaval; que longe da visão antropológica de Roberto da Matta2, se coloca, aqui, como estratégia de disfarce, como signo arbitrário; que agora subverte a arte (pela falta de regra fundamental e, ao mesmo tempo, pela estetização geral); a música (o fim das vanguardas musicais pelo oportunismo fonográfico); a história (a morte do real pelo virtual3); a antropologia (a tradição como mercadoria exótica); a sociologia (a ordem social como ordem estatística; apenas o discurso de uma cidade invisível – lembremo-nos de Ítalo Calvino4 – sobrevive como explicação para a barbárie social).
Logo, apesar de propor uma outra hierarquia social pelo riso e pelo grotesco, o discurso carnavalesco se esgota na própria ambigüidade; e aí como via de manutenção do status quo; corrosão que se dá apenas no nível da linguagem como instrumento de dominação. Sistema que nos ajudará, talvez, a pensar essas relações, como diz Pierre Bourdieu5, numa espécie de “microcosmos de luta de classes”.
Notas
1 A questão da subjetividade, da verossimilhança e da linguagem observadas como capital simbólico do historiador que, na própria estrutura do campo em que se produz e reproduz a sua crença, subverte fenômeno histórico. Sem deixar de manter, no entanto, sua base analítica, a mediação se dá; vítima da consciência social do meio e de uma espécie ortodoxia epistemológica.
2DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro. Rocco, 6ªEdição, 1997.
3Sobre isso ver: BAUDRILLARD, Jean. A Ilusão Vital; tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2001.
4CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis; tradução de Diogo Mainardi. São Paulo. Companhia das Letras, 1990.
5BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004.
A questão antropofágica
Recuperamos o canibal como matriz de oposição simbólica ao etnocentrismo e, ao mesmo tempo como personagem vulnerável porque faminto aos encantos da realidade opressora. Ensaiado por Oswald de Andrade6 como o ícone de uma postura independente, crítica, irreverente ante a condição submissa que se encontrava o Brasil, tal orientação estética e ideológica se encontra, agora, em transe. Fome que continuamos a tê-la; sempre disfarçada por exposições carnavalescas e fórmulas fáceis de sucesso. O jogo da alteridade, antes tido como rebelião imaginária (vemos a literatura7); reação anticolonialista que nos libertaria de nossa condição submissa pela “devoração do outro”, se encontra, hoje, sem nenhuma perspectiva porque sufocada pela razão burguesa; grande mantenedora de uma visão relativa da cultura popular; esta descrita e definida pela “mestiçagem”; espécie de fantasia; máscara para ocultar o fantasma do corpo estilhaçado que nos sustenta.
Índios, escravos, sem-terras, flagelados e desempregados; todos nós coadjuvantes de um mundo fictício, observamos através da linguagem, da licença e do abuso, o nosso cotidiano simulado através mitos eróticos e políticos. O instinto antropofágico que outrora serviria como terapêutica; remédio drástico mas salvador da convalescença intelectual do país foi subtraído, não como força emancipável mas como “... luta propriamente simbólica (...), reproduzindo de forma transfigurada o campo das posições sociais8”. Vemos, portanto, que o mundo oficial, aquele mesmo a nos devorar em carne e osso (pela dominação econômica), é o mesmo a nos lançar num ambiente de dominação simbólica. Através de estratégias de controle e de disfarce, somos a ficção dada pelo outro.
Enquanto a cultura não for revolucionada, continuaremos a ter nossa miséria moral sempre disfarçada ideologicamente por estratégias que, segundo Marilena Chaui9, “não fornece aos homens o conhecimento da sua estrutura social, mas justifica o sistema pelo que ele é, através de uma falsa consciência”.
Notas
6Ancorado no Movimento Modernista Brasileiro, o poeta, romancista e ensaísta, Oswald de Andrade, (1890-1954) apostou no Manifesto Antropofágico (1928) como “Metafísica Bárbara”; “mistura de imagens, conceitos, provocação polêmica, irreverência à intuição da história. A prática do canibalismo, a devoração antropofágica é o um misto de insulto e sacrilégio contra um inimigo de muitas faces. São eles: o aparelhamento colonial político-religioso repressivo sob que se formou a civilização brasileira, a sociedade patriarcal com seus padrões morais de conduta, as suas esperanças messiânicas, a retórica de sua intelectualidade, que imitou a metrópole e se curvou ao estrangeiro, o indianismo como sublimação das frustrações do colonizado, que imitou atitudes do colonizador”. Ver mais sobre isso em: ANDRADE, Oswald de. Obras Completas: Do Pau-brasil à Antropofagia e às Utopias. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1970.
7Também produto do antropofagismo, Macunaíma (1928) representa no literário a sátira contra a mesmice; onde o lirismo, a mitologia e o folclore misturam-se através de um linguajar popular. Mário de Andrade (1893-1945) utiliza traços do Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo, sobrepostos às raízes da cultura brasileira. Ver: ANDRADE, Mario de. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter; texto revisto por Telê Porto Ancona Lopez. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro. Livraria Garnier, 32ªEdição, 2001.
8BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004, p.11.
9CHAUI, Marilena de Souza. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 3ªEdição, 1980, 25.
A questão tropicalista
O movimento tropicalista10 se afirmou, no final dos anos 1960, como reedição do Antropofagismo oswaldiano, fruto de uma consciência social, depois política e econômica, combinada com exigências estéticas e morais. Através da paródia e do deboche encontrou na música e em outras artes como Tropicália11– escultura de Helio Oiticica e na peça O Rei da Vela12 – de Jose Celso Martinez (alguns exemplos), a sua forma de expressão e contracultura. Fonte de experimentação que, se por um lado nos livrou das manias européias, por outro nos ajuda a rediscutir, hoje, o exotismo formalizado como percepção imediata de nossa cultura. Para o “discurso oficial” somos uma síntese da multiculturalidade romântica herdada sob a piedade colonialista dos jesuítas; para os intelectuais essa diferença só pode ser “resolvida” pelo seu diferencial irônico; ou seja, pelo jogo violento da sedução e da devoração. Será uma lei? A teoria do exotismo será ética, estética, uma filosofia, uma arte de viver, uma visão de mundo?
Vemos que predominante não é o regime da diferença e da indiferenciação, é o da incompreensibilidade eterna; estranheza irredutível das culturas, dos rostos e das linguagens. O tropicalismo revela esse diagnóstico porque nos lança no pânico carnavalesco do Brasil; lugar onde “a bossa e a palhoça”13 convivem juntas. Surrealismo tropical em que, impor-se um conceito de cultura (apenas), torna-se impossível por qualquer via; a não ser a do poder de quem a nomeia, repetindo o gesto de dominação.
O exótico no Brasil é, antes de tudo, um discurso travestido; mito romântico da democracia racial que subverte o político, o social, o tecnológico, o cultural, o espiritual, o sexual. A sociedade primitiva ainda não tirou suas máscaras e nem a sociedade burguesa se livrou de seus espelhos; o que sobreviveu foi uma predestinação arbitrária, uma espécie de abuso. Apenas sedução; excesso do outro e da alteridade, vertigem do mais diferente que o diferente.
Enquanto a cultura for observada de maneira residual, ou seja, ignorando as contradições políticas e histórico-sociais sob uma perspectiva de luta de classes, estaremos condenados pelo vício da legitimidade absurda dentro da experiência comum. Por isso, entendemos que o exótico - signo que se desloca no campo semântico da racionalidade, deve seguir um outro paradigma cultural que não seja mais o da resistência (universalidade abstrata) e sim o da revolução.
Notas
10Ver mais sobre isso em: VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo. Companhia das Letras, 1997.
11O termo Tropicália nasce como nome da obra de Hélio Oiticica (1937-1980) exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, em abril de 1967. O uso de signos e imagens convencionalmente associados ao Brasil não tem como objetivo figurar uma dada realidade nacional - tarefa que mobilizou parte de nossa tradição artística -, mas, nos termos do artista, objetivar uma imagem brasileira pela "devoração" dos símbolos da cultura brasileira. A idéia da "devoração", nada casual, remete diretamente à retomada da antropofagia e ao modernismo em sua vertente oswaldiana, da qual se beneficia a obra de Hélio Oiticica.
12A estréia de O Rei da Vela, em 1967, teve o mérito de incorporar Oswald de Andrade, com um texto publicado em 1937, à História do Teatro Brasileiro, e de ser o arauto de um movimento batizado como tropicalismo, de repercussão em outras artes.
13Os termos Bossa e Palhoça, utilizados na Música Caetano Veloso, sintetizaram na canção “Tropicália”, conversas e discussões estéticas que vinha tendo com Gil, com seu empresário Guilherme Araújo, com a cantora (e sua irmã) Maria Bethânia, com o poeta Torquato Neto e o artista gráfico Rogério Duarte. O resultado foi uma espécie de colagem poética, que traçava uma alegoria do Brasil através de seus contrastes. Quem sugeriu o título “Tropicália” para essa canção foi o fotógrafo (mais tarde produtor de cinema) Luís Carlos Barreto, que ao ouvi-la, no final de 1967, lembrou da obra homônima que o artista plástico Hélio Oiticica expusera no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, alguns meses antes.
Conclusão
Mesmo sabendo que o nosso projeto como nação política deva conter como princípio à superação de heranças ideológicas e estruturais de fundo deformador, cumpre-nos ao mesmo tempo manter a necessária clarividência crítica para buscarmos distinguir e preservar, dos matizes de ancestralidade, os traços positivos que conferem a nossa cultura o seu caráter definidor, a sua maturação de consciência, a sua dignidade afirmadora. A arte nova e a literatura nova têm a obrigação de saber que toda a criação, não obstante a sua modernidade, a sua novidade, está sempre apoiada numa linha de tradição, elemento dinâmico a mover e impulsionar o processo estético; e que, ao mesmo tempo, este processo tem que ser observado dialeticamente. Se a nossa arquitetura se exporta, se a nossa ficção hoje se exporta, se a nossa poesia hoje se exporta, se o nosso cinema e a nossa música hoje se exportam, é porque estamos exportando com a nossa arte a nossa própria expressão nacional, a qualidade – mais do que a novidade – do nosso modo de ser como povo, como nação. Soubemos, com o modernismo, reavivar a linha de tradição da inventividade, da abertura a formas que nos legou o barroco. E a nossa responsabilidade como artista paradoxalmente adulto, num país subdesenvolvido como o Brasil, nos prescreve uma atitude de permanente consciência crítica, consciência tanto diante da realidade, quanto da dignidade afirmadora de nossa própria identidade. E só estaremos exercendo esta consciência enquanto formas capazes de reinventar e revolucionar. Uma crítica exercida não apenas sobre a linguagem, mas principalmente sobre a realidade de que ela emerge, que ela exprime, que ela denuncia, realidade que cabe ao artista auxiliar a modificar com a ação sempre renovadora da arte verdadeiramente inventiva.
Bibliografia
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil, 7ªEdição, 2004.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro. Rocco, 6ªEdição, 1997.
VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo. Companhia das Letras, 1997.

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