quarta-feira, julho 12, 2006

História e Cinema: Questões Metodológicas

Apresentação

Não se pode começar sem deixar claro o que propomos com este trabalho. Vale dizer, em primeiro lugar, que é um texto que discute o Cinema como objeto de investigação no campo das ciências humanas; em especial na área de História. Nossa preocupação objetiva será tentar apontar caminhos, redefinir e confrontar horizontes sobre o processo de apreensão e análise da arte cinematográfica sugerindo um diálogo desta mesma arte com a História. Tal abordagem se apresenta de forma prosaica, leve, mas necessária, porque toca na responsabilidade do pesquisador em examinar qualquer tipo de formalidade analítica preconcebida.
Começamos refletindo Marc Ferro1 (que nos serve como “edifício teórico”) e suas ponderações específicas: dilemas sobre as apropriações e reformulações do discurso cinematográfico pelo Estado; a questão da ideologia como mola propulsora e difusora de uma visão social que se diz predominante. O texto (o dogmatismo) e a imagem (o lúdico) como elementos da narrativa cinematográfica; as contradições necessárias que enquadram esses dois elementos como eixos de uma avaliação histórica e, nesse conjunto, discutir a importância da incorporação de outras disciplinas como a Filologia e a Semiologia numa perspectiva interdisciplinar. O conceito de “ciência operatória” (que interpretamos como pensamento síntese) dada a História pelo autor será reavaliada, também, nesse contexto.
Num outro momento verificamos atentamente alguns trabalhos de pesquisa situados entre 1993 e 2003; recorte orientado por se ajustar ao tema proposto (cinema e história); tentativa em confrontar interpretações e sublinhar quais foram eixos de discussão absorvidos em cada tema, e o que poderia ser aprofundado ou não. Este procedimento se abre como fundamental em nosso trabalho porque dialético, restituindo um caráter mais ensaístico e preliminar de reflexão da história e do cinema; meditação indispensável para poder seguir em frente, para esclarecer as próprias reais necessidades de novas idéias, de novas formas de investigação acadêmica.
O terceiro e último capítulo de nosso trabalho é uma leitura síntese do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha. Leitura-desfecho que se trata de um processo; reeducação lingüística daquilo que foi discutido ao longo do trabalho; da aplicação cirúrgica, operatória de Ferro ao experimentalismo informal dos trabalhos absorvidos. O objetivo final desta monografia é trabalhar com a hipótese de uma avaliação dialético estrutural da película-fonte-histórica mediada pela estética; justificada pelas conexões estilísticas da literatura de Cervantes no filme do cineasta baiano; e contribuir para que tais concepções e teorias, representativas do conhecimento científico em uma dada época histórica, se decaírem enquanto ciência em períodos posteriores, continuarem, válidas e admissíveis, a existir, não mais no domínio da ciência, mas no domínio da arte e da imagicidade; mostrando que os caminhos da história são todos os caminhos.

- História e Cinema: Possibilidades Metodológicas em Marc Ferro
A questão que norteia as discussões sobre que tipo de opção metodológica específica adotar quando o assunto é história já é preocupante sob o ponto de vista semântico (que fontes efetivamente atenderão o objeto estudado e em que conjuntura ele está inserido; e como se dá esta articulação quando o enfrentamento é a contemporaneidade em sua problemática); ainda mais se acrescentarmos outras fontes que se diferenciem completamente dos códigos tradicionais da historiografia convencional como, por exemplo, o Cinema. Experiência que interfere no fenômeno histórico no campo audiovisual desconstruindo e construindo metanarrativas sucessivamente (se pensarmos no surrealismo de Buñuel ou no neo-barroquismo de Glauber). O documento telecinado aparece como registro transgressor a uma fidelidade quase que dogmática atribuída ao texto escrito; “texto para ser visto” e não mais lido; para ser explorado de outra maneira pela carga de subjetividade que ele evoca. A relação com o passado, sob esta perspectiva, revela-se apenas, por registros audiovisuais nas suas mais diversas ramificações: cinematecas, televisões, coleções privadas, etc... . O escrito passa a dividir sua hegemonia com o filmado; que antes não se constituía como documento, mas como “antidocumento” porque lhe cabia uma outra interpretação incipiente que corrompia os domínios do inteligível e por isso era considerado subalterno; não pela profusão de significados, mas pelo caráter lúdico, dispersivo que suas imagens até hoje ainda evocam.
Pensar a imagem como texto e o texto como imagem. Como os dois se relacionam no campo da investigação histórica? O Cinema se insere neste contexto com o mesmo estatuto de fonte escrita? Quais as implicações metodológicas que podemos observar e aplicar quando pensamos em uma análise mais diversificada do fenômeno histórico através de recursos audiovisuais? Marc Ferro nos ajuda pensar sobre a escolha desses documentos e a forma de reuní-los. Segundo ele, nos textos escritos:

“... os enfoque de seus argumentos são também uma montagem um truque, uma trucagem. Basta se perguntar: com a possibilidade de consultar as mesmas fontes, será que os historiadores escreveram, todos eles a mesma história da Revolução?”. 2


Em síntese o que historiador francês apresenta é um desafio que nos lança em outra dimensão; dimensão anárquica, onírica; e que, portanto, leva-nos a perceber uma relação entre história e cinema de maneira também heterodoxa. Perceber a relação ficcional que há no texto escrito para entender a ficção cinematográfica. Reeducar o olhar para o audiovisual; para o visível e para o invisível. Pensar no cinema como algo que rompa com o absoluto e ao mesmo tempo entendê-lo como objeto transgressor porque subverte o fenômeno histórico. A “contra-análise”, termo que tomamos emprestado de Ferro sintetiza essa obscuridade que vai no sentido não da escuridão, mas ao paroxismo de uma claridade irresoluta da película; que para ele, ironicamente:
“... tem essa capacidade de desestruturar aquilo que diversas gerações de homens de Estado e pensadores conseguiram ordenar num belo equilíbrio. (...) destrói a imagem do duplo que cada instituição, que cada indivíduo conseguiu construir diante da sociedade”. 3

Essa relação metonímica, excepcional emanada pelo cinema é organicamente um instrumento de subversão e manutenção do “status co” tanto no campo simbólico quanto na sua funcionalidade real no interior de uma sociedade industrial capitalista. O duplo para Ferro é esse movimento de constituição e fragmentação dos indivíduos e das instituições que se chocam através do espelho cinematográfico; que se comporta ou pela existência de um cinema dominante (o Cinema Norte-Americano), rigidamente codificado, e a sua retórica de base: “a impressão da realidade”; ou das oposições, onde inspirações diversas definem propostas de “um outro cinema” (o Neo-realismo Italiano, a Nouvelle Vague, o Cinema Novo...); dissidência franca que conseguiu se fazer ouvir, para valer, em pequenos círculos ao longo desses anos, tal como tem acontecido com diferentes práticas artísticas marcadas por uma ruptura com os códigos da indústria cultural. Nesse contexto, a experiência do cinema, em suas diferentes matizes e particularidades, constitui talvez a matriz fundamental de processos que ocupam hoje a maior parte da Nova História Cultural e dos intelectuais que interrogam a modernidade e pensam as questões estéticas do nosso tempo.
Assim, a relação entre Cinema e História torna-se sempre um movimento duplo, ambíguo; texto e subtexto; moderno e arcaico; presente, passado e futuro; interação sub-reptícia de vários textos simultâneos.
O filme, como qualquer texto, apresenta um claro subtexto, expresso nas figuras de linguagem através das montagens, como alegoria (estratégias de disfarce), a metáfora (conceitos abstratos) ou a síncope (violação da ordem cronológica). Neste sentido, qualquer trabalho que se utilize o cinema como fonte historiográfica implica a observação detalhada de todos estes textos superpostos e simultâneos. Marc Ferro observa que a análise não incide necessariamente sobre a obra em sua totalidade, mas apoiando-se “sobre extratos, pesquisar séries, compor conjuntos”. Segundo ele:

“É preciso aplicar esses métodos a cada um dos substratos do filme (imagens, imagens sonorizadas, não sonorizadas), as relações entre os componentes desses substratos; analisar no filme tanto a narrativa quanto o cenário, a escritura, as relações do filme com aquilo que não é filme: o autor, a produção, o público, a crítica, o regime de governo. Só assim se pode chegar à compreensão não apenas da obra, mas também da realidade que ela representa”. 4


Essa realidade que, segundo Ferro, o cinema à vontade reproduz e organiza é a realidade do mundo que nos impregna; é um continuum sensível pelo qual a película se faz moldar tanto espacial como temporalmente. Não podemos repetir um só instante das nossas vidas, porém qualquer um desses instantes que o cinema repete indefinidamente, podemos vê-lo. Um outro aspecto importante é sobre o papel do historiador em perceber claramente as intenções do realizador, seu ambiente histórico e cultural, que lançam a luz sobre o próprio filme (sobre como, por exemplo, perceber as obras e o referencial teórico de Serguei Eisenstein; ainda referência ímpar neste século, não havendo reflexão sobre cinema que se iguale à sua; na amplitude do pensamento, no fôlego da argumentação). Perceber que as fontes nunca são completas e devem ser lidas diversamente em cada época, para cada observador, de acordo com os valores, projetos e gostos.
Dessa forma, o cinema que nos faz pensar na equivalência profunda da matéria e do espírito, do contínuo e do descontínuo, do aleatório e do determinado, nos indica também a profunda natureza comum do real e do irreal, que são ligados por finas transições e que se fazem e desfazem um do outro, um no outro, um pelo outro. Tais imagens se fundem em nossa consciência numa cena total, embora não sejam as partes de um imutável mosaico existente, nem nunca poderiam ser transformadas numa imagem englobante e única.
A investigação histórica não nos mostra apenas as modalidades de renovação que as mensagens informativas executam em face dos códigos e ideologias. Mostra-nos, ao mesmo tempo, o movimento contínuo pelo qual a informação redimensiona códigos e ideologias e se retraduz em novo código e nova ideologia.
Ficará mais claro entendermos esse processo se, ao invés de aplicarmos todos os conceitos de ideologia em nossa reflexão, partirmos do conceito Leninista; que faz uso do termo como qualquer percepção da realidade social ou política, vinculada ao interesse de certas classes sociais. Tal visão nos permitirá situar historicamente alguns exemplos funcionais de discursos emanados pelo Estado e suas implicações doutrinárias, tendo como eixo difusor o cinema; para em seguida especularmos sobre as possíveis intervenções críticas do historiador nesse universo.
O uso do cinema como veículo de propaganda, doutrinação e falseamento do passado vem de longe. O cinema soviético (glorificando o socialismo), o cinema nazista (anti-semita, porém de ótima qualidade estética) e o cinema norte-americano (sofisticado como máquina de alienação) muito contribuíram para fins políticos e para o contrabando ideológico.
Após o triunfo da Revolução Russa, os comunistas utilizaram o cinema como instrumento de propaganda. Para os dirigentes soviéticos, a sala de cinema deveria “substituir o boteco e a igreja, devendo ser suporte para a educação das massas”. Muitos filmes foram produzidos. Do ponto de vista histórico, em filmes como O Encouraçado Potemkin e Alexandre Nevsky, de Eisenstein, muitos fatos foram distorcidos e até alterados para coadunarem-se aos objetivos políticos propostos. Era o cinema a serviço de uma causa.
Na Alemanha nazista, o cinema esteve a serviço do regime. Noventa e seis filmes saíram diretamente do Ministério da Propaganda. Esses exaltavam o Fuhrer, a militância partidária, a vida rural, as grandes figuras da história da Alemanha, e atacavam os comunistas, os liberais e, sobretudo os judeus. O jovem hitlerista Quex conta à história de um jovem assassinado pelos comunistas. O enredo expõe a opressão sob a qual vivia a minoria alemã na Polônia. Em O Triunfo da Vontade (sobre vários congressos do Partido Nazista), temos um filme de propaganda de enorme qualidade, tanto técnica como estética. O ódio aberto aos judeus aparece em O Judeu Suss.
Os norte-americanos usaram o cinema para execrar os nazistas e os japoneses, produzindo centenas de filmes de guerra com uma visão maniqueísta, glorificando os Estados Unidos como o principal defensor do mundo livre. Durante a Guerra Fria, milhares de filmes foram produzidos exaltando “o modo de vida do americano” e repudiando a vida cinzenta, sem liberdade e opressiva dos chamados países da “cortina de ferro”.
Logo, é verdade que os cineastas têm cometido distorções sobre o passado. É verdade também que filmes com erros históricos (não só de datas, fatos, mas também conceituais) podem ser verdadeiras obras de arte. Se os encararmos como ficção, tudo bem. No entanto é preciso uma avaliação crítica das “verdades históricas” apresentadas nessas megaproduções. A especificidade cinematográfica se refere no campo da investigação histórica, pois, a um trabalho renovador e, ao mesmo tempo, a um processo de transformação. O que importa é saber se o trabalho está à mostra, se o consumo do produto provoca um efeito de conhecimento; ou se ele é dissimulado e, neste caso, o consumo do produto será evidentemente acompanhado de uma mais-valia ideológica.
No plano prático, coloca-se a questão dos procedimentos pelos quais o trabalho do historiador pode efetivamente tornar-se legível em sua inscrição. E nesse caso utilizar os recursos tecnológicos modernos como instrumentos úteis no processo de pesquisa é de grande relevância. Exige, no entanto, pesquisa, leitura crítica, debate, diversidade metodológica e ideológica e, sobretudo o saber pensar e analisar o filme. Às vezes os cineastas, totalmente imbuídos de seus produtos, proclamam-se historicamente “precisos”, “fiéis”; e muitos historiadores os supõem assim.
Marc Ferro sublinha a função do historiador em face aos documentos e dos aparelhos (partidos políticos) que os utilizam ou ocultam em seu próprio favor. Logo:

“O historiador tem por função primeira restituir à sociedade a História da qual os aparelhos institucionais a despossuíram. Interrogar a sociedade, pôr-se a sua escuta, esse é, em minha opinião, o primeiro dever do historiador”. 5


Cabe ao historiador, nesse sentido, romper qualquer tipo de processo hegemônico-cultural e exercer uma influência mais marcante, um controle mais eficaz sobre as sugestões provenientes da leitura dos documentos. Ferro nos diz que, para isso:

“Em lugar de se contentar com a utilização dos arquivos, ele deveria antes de tudo criá-los e contribuir para a sua constituição: filmar, interrogar aqueles que jamais têm direito à fala, que não podem dar os seus testemunhos. O historiador tem por dever despossuir os aparelhos do monopólio que lhes atribuíram a si próprios e fazem com que sejam a fonte única da história”. 6


Ou seja, o esforço do historiador está marcadamente atribuído por um pressuposto de combate a mistificação; e também em confrontar os diferentes discursos da História, a descobrir, graças a esse confronto, uma realidade não visível. A obra cinematográfica que ensina a pensar a história de modo diferente e a ver o mundo com olhos novos, no momento mesmo em que se estabelece como fonte, torna-se modelo. Institui novos hábitos na ordem dos códigos e das ideologias: depois do aparecimento daquela obra, será diferente pensar a história da maneira como ela a usara e ver o mundo da maneira como ela o mostrara. Reestruturam-se novos códigos e novas expectativas ideológicas. O movimento recomeça. O historiador sensível que queira colher a obra cinematográfica em todo o seu viço, não deve apenas lê-la à luz dos seus próprios códigos. Deve procurar o universo retórico e ideológico e as circunstâncias de comunicação de onde a obra partiu.
É através desse universo teórico-metodológico-científico que chegamos ao historicismo; que descobriu a relatividade histórica do conhecimento, descobriu a limitação unilateral de toda a interpretação científica da realidade, desmistificou as ilusões positivistas de um conhecimento absoluto, neutro, da realidade, mostrou a importância de se dar conta da especificidade, da particularidade do conhecimento científico da sociedade, das diferenças entre o conhecimento social e os conhecimentos das ciências naturais. Mas não conseguiu superar os dilemas do relativismo, para qual todo conhecimento é parcial e subjetivo.
Portanto, na análise de um filme, como qualquer outra mensagem, devemos observar que ele contém seus próprios códigos: quem hoje lê os poemas homéricos extrai dos significados denotados pelos versos uma tamanha massa de noções sobre o modo de pensar, de vestir, de comer, de amar, ou de guerrear daqueles povos, que está apto a reconstruir seus sistemas de expectativas ideológicas e retóricas. Do mesmo modo, encontra-se, assim, no cinema, as chaves que nos possibilitem vê-lo inserido no ambiente histórico do qual saiu; as chaves com que relacionamos a mensagem aos seus códigos de origem; reconstruídos por um processo de interpretação contextual determinada.
A Filologia e a Semiologia podem auxiliar a História nesse trabalho de informação que nos leva não a dissecar a obra cinematográfica numa leitura acadêmica, mas a reencontrá-la nas condições de novidade em que nascera: a reconstruir em nós a situação de virgindade em que se encontrava quem dela se aproximou pela primeira vez; observando que cada interpretação da obra, preenchendo de novos significados a forma vazia e aberta da mensagem original dá origem a novas mensagens-significado; as quais passam a enriquecer nossos códigos e nossos sistemas ideológicos; reestruturando-os e dispondo os historiadores de amanhã a uma nova situação interpretativa em relação à obra. Isso num movimento contínuo, sempre renovado, que a Semiologia define e analisa nas suas várias fontes (“verdades”), mas não pode prever quanto às formas concretas que irá assumir.
Portanto, poderíamos deduzir que o caminho para essas “verdades”; o caminho para a subjetividade do processo metodológico de observação do cinema como fonte histórica é, ao mesmo tempo o caminho do ecletismo, que toma um pouco de cada visão de mundo, um pouco de cada teoria e, juntando esses aspectos parciais e unilaterais, supostamente chegaremos a uma visão multilateral, geral, universal e objetivamente válida (?).
Essa concepção universal, relativista que é muito popular, e que se encontra muito freqüentemente na vida universitária pode ser considerada como “ilusão”, justamente pelo seu caráter infinito. Basta mencionar as tentativas de síntese entre o positivismo (trabalhando com a hipótese de que a metodologia das ciências sociais tem que ser idêntica à metodologia das ciências naturais, posto que o funcionamento da sociedade é regido por leis do mesmo tipo das da natureza) e o marxismo (caracterização de uma teoria como representando o ponto de vista que está centrado na luta de classes), existe dezenas, centenas talvez. Além do que, que tipo de síntese? Entre que tipo de teorias? Existe uma quantidade infinita de sínteses possíveis entre os vários pontos de vista, as várias visões de mundo, as várias teorias. Então, em lugar de ser ter três, quatro ou cinco teorias fundamentais sobre a relação entre cinema e história e suas implicações metodológicas, ter-se-iam três, quatro, cinco, dez, tentativas de síntese, diversas entre elas, cada uma delas pretendendo ser a melhor. Cada uma com o seu pensamento de classe.
Voltamos assim ao ponto de partida: infinidades de pontos de vista, cada um deles pretendendo que é objetivo, que é verdadeiro, negando os outros, resultando do mesmo caos e a mesma anarquia. O ecletismo não nos avançou em nada, simplesmente reformulou os mesmos problemas, os mesmos dilemas, a um outro nível.
Sobre esse dilema, a lógica da avaliação cinematográfica deve introduzir, segundo Marc Ferro, uma moldura que se cristalize na história como ciência operatória. Para ele:

“(...), a História deveria fornecer uma reposta, mas freqüentemente a serviço das instituições, ela se contenta em distribuir o sonho, mesmo portando a máscara do cientificismo. Ela se recusa demais a explicar o presente, daí a onda, fugaz é verdade, da Sociologia”. 7



- Uma investigação para além da “ciência operatória”
O universo fílmico é a anti-histórico; metateatral, metalinguístico, metasonho, metarealidade; político, antipolítico. A invisibilidade cinematográfica está no seu próprio discurso; que deve ser confrontado permanentemente em todos os campos (estético, sociológico, antropológico, psicanalítico, filosófico, tecnológico, econômico...); entender o realismo ficcional do cinema para relativizar a crueza ingênua e dogmática das fontes escritas é, ao mesmo tempo, entender “Que aquilo que não aconteceu (e por que não aquilo que aconteceu?), as crenças, a intenções, o imaginário do homem, são tão História quanto a História” 8. A mudança de paradigma em descobrir os métodos de análises aplicáveis à história contemporânea é, portanto, ideológica e antiideológica, histórica e anti-histórica quando se refere ao cinema. O paradoxo não se estabelece apenas no desafio em restituir a sociedade uma consciência “cidadã”, anti-mistificante como nos aponta Ferro; mas em pensar essa mesma sociedade para e através de um cinema revolucionário, antiburguês, comprometido com as causas importantes do seu tempo. Tal processo forneceria a História um outro estatuto interpretativo. O cinema irracional, a História irracional, o historiador e as fontes pautadas por uma irracionalidade crua, revolucionária que balizaria um novo método de avaliação e interpretação da história. Um poema lido ao contrário; toda a tragédia latino-americana, euro-americana, afro-brasileira e mundial. O delírio trágico da fome e da miséria terceiro-mundista seria novamente o grande desafio do cinema mundial e a sua nova vocação histórica; que é antiindustrial, antiacadêmica e, antes de tudo, revolucionária. A “História Nova” é a revolução e o Cinema a sua arma.
A interpretação cinematográfica da história e a reinterpretação histórica do cinema devem fugir completamente aos padrões convencionais (do arcaísmo, do tradicionalismo, do dogmatismo, do positivismo, historicismo e do ecletismo) e encontrar um novo caminho como nos aponta Ferro; reposta marginal aplicada num universo cuja investigação se desdobra, ainda, como denúncia social e não como problema político. Observamos que o ausente distanciamento da História se coloca do mesmo lado que a “ficção” cinematográfica. Nem a História Contemporânea consegue se explicar pela falta de distanciamento com os métodos de análise e nem o Cinema mundial se libertou completamente do vício subcomercial imposto pela indústria cultural. Logo:

“(...) creio que não se trata nem de incapacidade nem de retardamento, mais sim de uma recusa em enxergar, uma recusa inconsciente, que procede de causas mais complexas. (...), lendo os Historiadores da História, percebe-se que a ideologia do historiador variou, que diversos tipos de historiadores coabitam e constituem meios que, entre eles, quase não se reconhecem, mas que os não-historiadores são capazes de identificar graças aos signos específicos de seus discursos”. 9


Logo, uma nova crítica se abre a uma nova perspectiva de avaliação do cinema como agente da História. A posição de Ferro é sintomática, neste caso, porque se desloca para além da História; sua metáfora é a do hibridismo, da pluralidade e da combatividade; sem o peso institucional. Ele nos mostra que a opção metodológica desta ou daquela avaliação histórica com um sistema fechado em si mesmo é profundamente incorreto. Diríamos que a possibilidade de haver um deslize de um tipo de pensamento para o outro, de uma categoria para outra, e mais – a coexistência simultânea, em proporções variáveis, de diferentes tipos e estágios (não-relativistas), precisam ser levadas em conta; pois muito elucidam que o cinema e a história se renovam e revelam; e que existe:

“(...) matéria para uma outra história, que certamente não pretende constituir um belo conjunto ordenado e racional, como a História; mas contribuiria, antes disso para refiná-la ou destruí-la”. 10

O refinamento para Ferro se coloca no que aí está; resultados irrisórios, constatações evidentes e descrições limitadas; já a destruição é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que envolvem a complexidade da investigação “cinematohistórica”: a sua própria verdade dialética.



- História do Brasil em tela: balanço sobre textos acadêmicos produzidos com filmes históricos brasileiros
Neste capítulo veremos alguns resumos de teses e dissertações defendidas em Universidades Públicas do Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis entre os anos de 1993 e 2003 que relacionam, como objeto de pesquisa, questões cuja relevância histórica está ligada a nossa discussão. O objetivo é tentar entender tipos de percepções que foram utilizadas ou não; além de identificar genericamente possíveis chaves de análise que possam nos ajudar em projetos futuros.

1)Autor: ALMEIDA, Cláudio Aguiar
Título: Cinema como agitador de almas: Argila, uma cena do Estado Novo
Cidade: Säo Paulo
Instituição I: Universidade de Säo Paulo
Instituição II: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Data de defesa: 1993.06.24
Volume: 1 v
Páginas: 223 p
Orientador: Maria Helena Rolim Capelato
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca CAPH
Resumo/abstract: Analisa a produçäo cinematográfica de longa-metragem e a política oficial do Estado Novo. Utiliza o filme "Argila" - de Humberto Mauro para estudar a influência da política na produçäo artística/cinematográfica no Brasil de Getúlio Vargas. Mostra a trajetória de nomes do cinema brasileiro dos anos 20, destacando as primeiras tentativas desses grupos em fazer do Estado, o grande mecenas do cinema. Estuda a luta dos produtores brasileiros e os projetos de Getúlio Vargas. Analisa alguns filmes de curta-metragem e seus conteúdos ideológicos. Enfoca as obras e propostas de Edgar Roquette-Pinto. Interpreta os conteúdos temáticos de Argila, relacionando-os ao contexto da época. (CAPH)
Descritorios primários: Argila; Estado Novo; História do Brasil; Cinearte; Cinédia; Instituto Nacional de Cinema Educativo; INCE; Cine Jornal Brasileiro; Curta-Metragem; Inconfidência Mineira; Chanchada; Cinejornal; USP
Pessoa: Mauro, Humberto; Pinto, Edgar Roquette
Fonte: usp.br/sibi; ibict.br; capes.gov.br
Publicação: ALMEIDA, Cláudio Aguiar. O cinema como "agitador de almas". São Paulo, Annablume/Fapesp, 1999.
Data de entrega: 1993

2)Autor: GUEDES, Joäo Januário Furtado
Título: Figuras do real: a história do Brasil na arte do cinema
Cidade: Rio de Janeiro
Instituição I: Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituição II: Escola de Comunicação
Data de defesa: 1994.07.01
Volume: 1 v
Páginas: 129 p
Orientador: Rogério Luz
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca ECO
Resumo/abstract: Análise fílmica do cinema brasileiro nos anos sessenta-oitenta exemplificado no "Cabra Marcado para Morrer" de Eduardo Coutinho. Teórica e metodologicamente afasta concepçöes tradicionais da historiografia bem como sobre o fim da história e assume a análise do filme como análise ideológica. Dessa maneira o percurso analítico centra-se na relaçäo entre estética e ideologia e chega a tomar partido explicitamente quando busca identificar a qualidade e a densidade do discurso político no filme analisado. Interroga o filme, objeto cultural, quanto à historicidade de suas formas ao momento histórico da emergência de suas possibilidades em termos de linguagem. A funçäo específica de sua estética encaminha a superaçäo da dicotomia entre análise interna e externa do filme, apreende elementos importantes (traços "pistas") para o conhecimento da história do oprimido no Brasil. Conhecimento relacionado especialmente ao projeto nacionalista populista de intelectuais brasileiros de esquerda (neste caso cineastas) nos anos sessenta. A meditaçäo através da prática cinematográfica de Coutinho sobre o fracasso desse projeto ao resgate de um modelo de participaçäo política em outros termos. Além disso estabelece um "canteiro de obras" teórico metodológico que permitirá o desdobramento de práticas analíticas sistemáticas e abrangentes do filme brasileiro.(Stumpf/Caparelli)
Descritorios primários: História; Populismo; Cabra marcado para morrer; UFRJ
Pessoa: Coutinho, Eduardo
Desde: 1960
Até: 1980
Fonte: minerva.ufrj.br; rumba.ilea.ufrgs.br; ibict.br; capes.gov.br
Data de entrega: 1994



3)Autor: BAMBA, Mahomed
Título: Letreiros e grafismos nos processos fílmicos: funcionalidade narrativa, plástica e discursiva da língua escrita na figuração cinematográfica
Cidade: São Paulo
Instituição I: Universidade de São Paulo
Instituição II: Escola de Comunicações e Artes
Data de defesa: 2002.08.20
Volume: 1 v
Páginas: 236 p
Ilustração: Ilus.
Orientador: Mariarosaria Fabris
Grau: Doutorado
Disponibilidade: Biblioteca ECA
Resumo/abstract: O objetivo principal deste trabalho é destacar a existência e a importância de uma dimensäo gráfica na figuraçäo cinematográfica e, mais especificamente, as funçöes narrativa, discursiva e enunciativa que acompanham a exibiçäo de palavras e grafismos sobre os diversos objetos e suportes de comunicaçäo que, por alguns momentos, encontram-se destacados pelos diferentes movimentos de câmera no interior do texto fílmico. A partir de uma revisäo das grandes correntes teóricas cinematográficas, buscamos, de um lado, reconstruir um percurso teórico que leva ao reconhecimento progressivo de um estatuto cinematográfico para as manifestaçöes de língua escrita encontradas nos filmes e, por outro lado, procuramos, através de uma análise fílmica, confrontar diferentes projetos estéticos, semióticos e narrativos em que a prática da exibiçäo das palavras filmadas está colocada em primeiro plano e nos quais estas palavras-imagens estäo diretamente relacionadas com o processo de manifestaçäo do ponto de vista da primeira instância do discurso fílmico.
Descritorios primários: Ganga bruta; Leone have sept cabeças, Der; História do Brasil; Como era gostoso o meu francês; Bandido da luz vermelha, O; Congo; ABC da greve; Tonica dominante; USP
Pessoa: Mauro, Humberto; Rocha, Glauber; Santos, Nelson Pereira dos; Sganzerla, Rogério; Omar, Arthur; Hirszman, Leon; Chamie, Lina
Fonte: sibinet
Observações: Os filmes brasileiros mais extensamente analisados dentro da proposta do autor säo O bandido da luz vermelha (p.194-204) e Congo (p.204-8).
Data de entrega: 2002



4)Autor: FLORES, Maria Isabel Urbina
Título: Cinema Novo: uma contribuição para o ensino de História do Brasil
Cidade: São Carlos
Instituição I: Universidade Federal de São Carlos
Instituição II: Programa de Pós-Graduação em Educação
Data de defesa: 2003
Volume: 1 v
Páginas: 95 p
Orientador: Amarílio Ferreira Júnior
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca UFSCAR
Resumo/abstract: Apresentamos uma proposta pedagógica que utiliza os filmes "Deus e o diabo na terra do sol" e "Terra em transe" de Glauber Rocha como recurso didático auxiliar a disciplina História do Brasil, abordando um dos períodos mais conturbados da formação social brasileira. Da transição de uma sociedade agrário-industrial para uma sociedade urbano-industrial que selou o fim do nacional-populismo e ao mesmo tempo esboçou a última manifestação autoritária das elites políticas brasileiras. A partir do resultado das análises dos Planos de Ensino das escolas "Anglo", E.E. "Álvaro Guião" e E.E. "Antonio Militão de Lima" da cidade de São Carlos, para a disciplina de História dos 2 e 3 anos do ensino médio, levantamos uma série de pontos que devem ser considerados pelo educador que quiser utilizar os filmes como recurso didático. E sugerimos um modelo de prática educativa com os filmes do cineasta Glauber Rocha, abrangendo conteúdos da disciplina História do Brasil para o ensino médio.
Descritorios primários: Cinema Novo; Educação; Ensino; História do Brasil; UFSCAR; Deus e o diabo na terra do sol; Terra em transe
Pessoa: Rocha, Glauber
Fonte: bco.ufscar.br
Geográficos: São Carlos - SP
Data de entrega: 2003



5)Autor: FONSECA, Vitória Azevedo da
Título: História imaginada e cinema: análise de Carlota Joaquina, a princesa do Brazil e Independência ou Morte
Cidade: Campinas
Instituição I: Universidade Estadual de Campinas
Instituição II: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Data de defesa: 2002
Volume: 1 v
Páginas: 330 p
Orientador: Leandro Karnal
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca Central Unicamp
Resumo/abstract: A presente dissertação é uma comparação entre os filmes históricos Carlota Joaquina, a princesa do Brasil (Carla Camurati, 1995) e Independência ou morte (Carlos Coimbra, 1972) e tem como objetivo compreender como estes representam a história do Brasil. A análise aborda, principalmente, os seguintes aspectos: comparação dos elementos da linguagem cinematográfica; processo de produção dos filmes ressaltando a preocupação, ou ausência dela, com a "reconstituição histórica" dos filmes e com a realização de pesquisas históricas; o diálogo que os filmes estabelecem com suas respectivas fontes históricas e como criam os significados históricos em imagens e, por fim, aspectos da recepção crítica dos filmes.
Descritorios primários: História; Carlota Joaquina: princesa do Brasil; Independência ou morte; Unicamp; Cinema e História
Pessoa: Camuratti, Carla; Coimbra, Carlos
Fonte: unicamp.br; capes.gov.br
Observações: Há versão eletrônica no site da Capes.
Data de entrega: 2002



6)Autor: CARDOSO, Maurício
Título: História e cinema: um estudo de Säo Bernardo (Leon Hirszman, 1972)
Cidade: São Paulo
Instituição I: Universidade de São Paulo
Instituição II: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Data de defesa: 2002.04.17
Volume: 1 v
Páginas: 137 p
Orientador: Zilda Márcia Grícoli Iokoi
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca CAPH
Resumo/abstract: Esta dissertaçäo de Mestrado interpreta o filme Säo Bernardo (Leon Hirszmann, 1972) explicitando, através da análise da linguagem cinematográfica e da recuperaçäo histórica, alguns significados estéticos da obra. Procuramos indicar que a construçäo do universo ficcional do narrador-personagem, Paulo Honório, e sua crescente perda de significado realizou-se pela manipulaçäo de determinadas estratégias narrativas, cujo resultado foi o surgimento de um "outro narrador". Ao mesmo tempo, as mediaçöes entre a ficçäo e o contexto social, evidenciaram as condiçöes de classe de Paulo Honório e Madalena, indicando um diagnóstico expressivo das tensöes sociais no campo, entre a décadas de 30 e 70. Neste sentido, o filme elabora uma crítica aos modelos de crescimento econômico e de atuaçäo dos setores dominantes que tem articulado a modernizaçäo dos processos de produçäo e a manutençäo de formas de dominaçäo das populaçöes rurais.
Descritorios primários: São Bernardo; Literatura; Adaptação; USP
Pessoa: Hirszman, Leon
Desde: 1930
Até: 1970
Fonte: usp.br/sibi
Data de entrega: 2002



7)Autor: LINO, Sonia Cristina da Fonseca Machado
Título: História e cinema: uma imagem do Brasil nos anos 30
Cidade: Niterói
Instituição I: Universidade Federal Fluminense
Instituição II: Departamento de História
Data de defesa :1995.01.01
Volume: 1 v
Páginas: 173 p
Ilustração: Ilustrado com 15 reproduçöes de fotos de filmes e pessoas.
Anexos: Relaçäo dos filmes citados (p.165-8)
Orientador: Rachel Soihet
Grau: Doutorado
Disponibilidade: Biblioteca Central UFF; Biblioteca de Humanidades UFC
Resumo/abstract: Este trabalho tem como objetivo compreender a década de 30 sob a ótica da produçäo cinematográfica ficcional aqui realizada e entendendo o período como de formaçäo de uma imagem social da naçäo. Utiliza-se a produçäo historiográfica sobre o cinema brasileiro e os periódicos de época para entender a imagem do país e do cinema idealizados pelos produtores. A partir da análise dos filmes e das críticas de época estabelece-se entre o idealizado e o filmado, o espaço considerado como o da especificidade nacional. Através dos filmes e do pensamento dos seus produtores chega-se à construçäo de uma auto-imagem com consequências marcantes tanto para a história do cinema brasileiro quanto para a delimitaçäo do conceito de nacional.
Descritorios primários: Cinema e História; Cinemas; Fan, O; Cinearte; DIP; Departamento de Imprensa e Propaganda; Cinédia; Chanchada; UFF
Pessoa: Gomes, Paulo Emilio Salles
Desde: 1931
Até: 1940
Fonte: biblioteca.ufc.br; capes.gov.br
Observações: Também aparece com 168 p.
Data de entrega: 1995



8)Autor: MOTTA, Sidney Silva da
Título: O livro de imagens luminosas: Estado Novo e cinema
Cidade: Rio de Janeiro
Instituição I: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Data de defesa: 2000.12.01
Volume: 1 v
Páginas: 101 p
Orientador: Luiz Jorge Werneck Vianna
Grau: Mestrado
Disponibilidade: Biblioteca UFRRJ
Resumo/abstract: O presente trabalho tem como objetivo analisar o período compreendido entre 1937 e 1945, conhecido como Estado Novo Brasileiro, a partir da relaçäo teórico-metodológica entre história e cinema. Utiliza-se o cinema de ficçäo nacional para entender como as propostas de naçäo, nacionalidade e formaçäo social elaboradas pelo Regime foram traduzidas para a memória coletiva.
Descritorios primários: Estado Novo; Cinema e História; UFRRJ
Pessoa: Vargas, Getúlio
Fonte: capes.gov.br
Data de entrega: 2000



9)Autor: CASAROTTO, Abele Marcos
Título: O Contestado e os estilhaços da bala: literatura, história e cinema
Cidade: Florianópolis
Instituição I: Universidade Federal de Santa Catarina
Instituição II: Programa de Pós-Graduação em Literatura
Data de defesa: 2003
Volume: 1 v
Páginas: 263 p
Orientador: Lauro Junkes
Grau: Doutorado
Disponibilidade: Biblioteca Central UFSC
Resumo/abstract: O objeto de estudo centra-se na relação entre literatura, história e cinema. A tese é estruturada em dois capítulos: o primeiro institui os fundamentos teóricos entre literatura, história e cinema, considerando o texto como elemento unificador das três áreas do conhecimento; o segundo estabelece relações entre os textos produzidos antes da Guerra do Contestado, os ralatórios de guerra, os textos históricos, o romance Geração do Deserto, de Guido Wilmar Sassi - texto centralizador da discussão - e o filme A guerra dos pelados, de Sylvio Back. Os textos são considerados como estilhaços da Guerra do Contestado.
Descritorios primários: História; Literatura; Guerra dos pelados, A; UFSC
Pessoa: Back, Sílvio
Fonte: npd.ufsc.br
Data de entrega: 2003




10)Autor: ABREU, Nuno César Pereira de
Título: Boca do Lixo: cinema e classes populares
Cidade: Campinas
Instituição I: Universidade Estadual de Campinas
Instituição II: Instituto de Artes
Data de defesa: 2002.11.25
Volume: 3 v
Páginas: 770 p
Ilustração: Reproduçäo de folhas de entrada do banco de dados do Anexo 2
Filmografia: Filmografia da Boca do Lixo (1969-1982)
Anexos: Anexo 1 (entrevistas, p.1-297); Anexo 2 (filmografia, p.I-IX e 1-219)
Orientador: Fernão Vitor Pessoa de Almeida Ramos
Grau: Doutorado
Disponibilidade: Biblioteca Central Unicamp
Resumo/abstract: Este trabalho propöe-se a tratar de aspectos da história social da indústria cinematográfica da Boca do Lixo, no quadro geral do Cinema Brasileiro, nos 1970, tendo como ambiente político o regime militar com a repressäo e a censura, por um lado, e os incentivos econômicos e a legislaçäo protecionista por outro. Através de entrevistas procura-se tecer uma trama que relate o processo de desenvolvimento de um processo social, que contém o econômico e o estético, de um ciclo de produçäo cinematográfica que se propôs a enfrentar o produto estrangeiro com o "similar nacional", ocupando parcela significativa do mercado exibidor - controlado pela distribuiçäo internacional. Um ciclo que teve características próprias - que interessa observar - em seus aspectos essenciais, principalmente através de seus personagens - sujeitos que relatam seu lugar na história do Cinema Brasileiro. A partir da rememoraçäo dos depoentes foram sendo estabelecidos recortes num inventário existencial, foi se dando um resgate, em que vozes singulares väo revelando, através de percursos de vida, uma rede de aspectos sociais, econômicos e culturais do desenvolvimento de uma "comunidade". A do cinema da Boca do Lixo. O trabalho se compöem de três partes maiores: o primeiro volume que faz uma reflexäo sobre a produçäo cinematográfica da Boca do Lixo, o segundo é um caderno de entrevistas, e o terceiro, a filmografia.
Descritorios primários: Pornochanchada; Boca do Lixo; Embrafilme; História; Unicamp
Pessoa: Bernardet, Jean-Claude; Cunha, Claudio; Cardoso, David; Prado, Guilherme de Almeida; Ramos, Helena; Araújo, Inácio; Castillini, Luiz; Massaini Neto, Aníbal; Portioli, Cláudio; Mastrangi, Matilde; Scalvi, Patrícia; Reichembach, Carlos; Renoldy, Silvio; Sternheim, Alfredo
Desde: 1969
Até: 1982
Fonte: unicamp.bc/br
Geográficos: São Paulo - SP
Data de entrega: 2002



- Concepções preliminares: Hipóteses
Percebemos de inicio, em todos os resumos, maneiras de envolver e discutir o universo cinematográfico em diferentes contextos; histórico, social, político, artístico, pedagógico e estético. Vejamos o primeiro e o sétimo resumo. O ato discursivo da película mesmo fora do contexto histórico atual comprova e revitaliza a experiência de um cinema que está, inexoravelmente e organicamente, vinculado ao Estado. A hipótese, já comprovada, nos permitiria trabalhar mais intensamente na questão sob uma perspectiva vista de baixo; ou seja, sem dispensar a análise gramsciana desses grupos (Cinédia; Instituto Nacional de Cinema Educativo; INCE...), articular também o resultado social e político dessas implicações na construção de uma identidade nacional (como nos sugere também o oitavo resumo); trabalhando inclusive com as cartas da época encaminhadas ao “pai dos pobres”; o Dr. Getúlio Vargas.
Vejamos o segundo resumo. A questão histórica – que, aliás, está sempre presente – “ganharia um outro contorno estético-ideológico” ao tentar verificar através do filme “Cabra Marcado para Morrer” de Eduardo Coutinho quais foram às causas para o “fracasso do projeto nacionalista populista de intelectuais brasileiros de esquerda (neste caso cineastas)” nos anos sessenta; afirmação antecipada “empiricamente” pelo pesquisador que se propõe, através do filme, reconstruir, segundo ele, “um canteiro de obras teórico metodológico que permitirá o desdobramento de práticas analíticas sistemáticas e abrangentes do filme brasileiro”. A primeira questão para nós seria isolar o termo populismo; suas implicações semânticas, a sua contextualização histórica, verificando os textos publicados sobre o assunto (ex: Ferreira, Jorge. O nome e a coisa: o populismo na política brasileira. In: Jorge Ferreira. (Org.). O populismo e sua história. Debate e crítica. 1 ed. Rio de Janeiro, 2001). Mapear quais os caminhos percorridos pelo autor da dissertação que o levaram ao uso legítimo do termo “populista” sob sua ótica. Um outro pressuposto seria identificar historicamente o que foi esse projeto populista; se ele de fato existiu no Movimento do Cinema Novo e porque fracassou. Estudar se o filme do Eduardo Coutinho efetivamente auxiliaria do ponto de vista “teórico metodológico” para entendermos tais questões sugeridas na pesquisa; ou se poderíamos encontrar outras produções que nos ajudassem a ampliar o universo pesquisado.
Num outro momento a questão propriamente discursiva, que envolve outros elementos de expressão (esteticamente falando), compõe uma percepção metalingüística do cinema. Vejamos o terceiro e o nono resumo; onde está sugerida uma ampliação do discurso cinematográfico. A intertextualidade e a hibridização, nesse caso, aproximam e dilatam os horizontes de uma avaliação entre o cinema e a história. Para nós seria interessante verificar e avançar didaticamente nas possibilidades discursivas; sempre permitindo aliar o experimentalismo solto e muitas vezes poético do cinema a visão sempre holística da historiografia. A experiência do Contestado permite-nos ampliar essa moldura tridimensional (historia social, cinema e literatura) por ser um tema absurdamente fecundo; justamente por que envolve conflito, o choque, o rústico...
Uma outra intervenção não muito “experimental” como a que vimos no parágrafo anterior seria uma verificação strictu-sensu do texto histórico adaptado para o cinema. Vejamos os resumos cinco e seis. Sem nos determos especificamente na questão da linguagem, gostaríamos, aqui, de sublinhar a importância do cinema como fonte histórica; pensando inclusive no que se traduziria verdadeiramente o confronto de dois filmes (Carlota Joaquina, a princesa do Brasil e Independência ou morte); qual a especificidade de cada um; o que é aprofundado ou omitido nos dois filmes; e que leitura do Brasil pode ser feita através dessas obras. No filme Säo Bernardo (Leon Hirszmann, 1972) a representação pode, além de dialogar com a História, reintroduzir uma nova possibilidade de investigação histórico-social do Brasil a partir dos antagonismos e/ou interesses de classe (a questão do campesinato entre décadas de 30 e 70). Admitindo, nesse caso, a uma percepção de como efetivamente o universo ficcional traduz, exemplifica e problematiza essa realidade.
O Cinema Marginal desenvolvido na Boca do Lixo paulistana funciona com um ponto de investigação absolutamente experimental, profano, debochado; o que talvez nos permita captar um quadro histórico, social e cultural bem heterogêneo de seus personagens dentro e fora da película. Mas não é só. Vejamos o décimo resumo. Aquilo que nos chama atenção na pesquisa de Nuno César é o diagnóstico da política cultural dos anos setenta; que se acomoda entre uma produção de caráter comercial – florescendo a comédia erótica, que eventualmente recebe financiamento do Estado – e uma produção “cultural” que delineou, portanto, a forma global da ação ideológica do Estado para o campo cinematográfico. Talvez pudéssemos avançar nessa temática fazendo uma análise comparativa entre esse trabalho (2002) e o recente livro A Evolução do Cinema Brasileiro no Século XX. Ricardo Waherendorff Caldas e Tânia Montoro (Coord.). Brasília; Casa das Musas, 2006. Atitude que nos permitira entender com mais detalhe o mecanismo das políticas públicas brasileiras para o cinema; ampliando, inclusive, o recorte histórico. Poderíamos ir até a década de 1990 com o fim da Embrafilme; analisando a jornais de época para obter mais informações sobre a produção, realização e distribuição dos filmes. Vejamos o resumo quatro. O movimento Cinema Novo como instrumento pedagógico deve ser absorvido, discutido e aprofundado cientificamente. Sua importância é necessária não apenas por tratar esteticamente o subdesenvolvimento do Brasil (que é histórico e político) de maneira tão aguda, mas porque permite a um público (não necessariamente infanto-juvenil), ainda em formação, refletir, também, sobre a condição de sua própria existência. Examinar produções como “Terra em Transe” no âmbito escolar, é mais do que descobrir historicamente e politicamente o Brasil; é se comprometer com seus problemas através do cinema. Diante disso, e seguindo um pressuposto não muito didático, porém reflexivo do ponto de vista historiográfico, faremos, a seguir, uma leitura em conjunto do Cinema Novo, da figura de Glauber Rocha e do emblemático “Deus e Diabo na Terra do Sol”. Leitura-síntese que nos permitirá introduzir de forma análoga um estudo crítico; articulando, ao mesmo tempo, algumas conexões literárias na ficção cinematográfica. Espécie de quadro barroco que tentará reforçar a interpretação do cinema como fonte de pesquisa e também como expressão política e artística para além do contexto histórico de 1964; ano em que o filme foi lançado. O nosso discurso será metonímico e tratará a arte como algo intertextual, transcendente, atemporal, porém histórico; uma compreensão histórica, política, social de ruptura através da estética e da literatura.



- O Cinema Novo como objeto historiográfico: A ampliação do olhar sobre Deus e o Diabo na terra do Sol

A antítese do sonho glauberiano pode ser revelada como marca salutar de uma arte que se desenha através de um paroxismo delirante, labiríntico; angústia que se dilata no exercício trágico de uma poesia épica, didática; espécie de ópera barroca que nos invade pelo caráter simbólico e dialético de seus personagens; energia revolucionária, quixotesca, organizada por um sentimento vulcânico de expor as feridas de um país epiléptico. Um país chamado Brasil.
Glauber Rocha, cineasta baiano morto em 1981 era assim mesmo, complexo; e continua sendo uma figura muito singular no que diz respeito à sua vida e obra; não só pelo número de filmes, ensaios, roteiros, cartas que nos deixou, mas pela profundidade científica de suas observações. Um calabouço de idéias misturadas por um sentimento às vezes incompreendido que, imediatamente “desafia” aqueles que discordam de sua lucidez profética e transformadora. Um idealismo atemporal, incansável que rompe, experimenta, exorciza todas as estruturas em nome de uma retórica cinematográfica nova, livre de esquemas ou convenções puramente comerciais ou partidárias. Arte que se constitui pela “brasilidade” estética, dramática, alegórica, inquieta, mágica, mística, anárquica; compromisso de “transformar” em utopia a consciência cega de um povo miserável, inerte diante de uma fatalidade social inconcebível.
Historicamente, foi através de idéias já fermentadas de transformação política e conscientização ideológica que Glauber, no final da década de 1950, começou junto com Miguel Borges, Cacá Diegues, David Neves, Mario Carneiro, Paulo César Saraceni, León Hirszman, Marcos Freire, Joaquim Pedro de Andrade, além de Nelson Pereira dos Santos (apenas alguns precursores), a desenvolver um tipo de cinema autoral e sem fronteiras. Um cinema que educasse o espectador em analisar a realidade do país através de uma dialética profunda, cirúrgica. Pedagogia revolucionária, batizada como Cinema Novo; percepção terminológica justificada pelo caráter híbrido, inédito e sempre inventivo de filmes que, apesar de “aliciados” pelo neo-realismo italiano, pela nouvelle-vague e pelo humanismo revolucionário do cineasta russo Sergei Eisenstein, – este talvez o maior inspirador ideológico do Glauber – conseguiram produzir uma concepção estética ousada, complexa, subjetiva, porém genuinamente brasileira.

- 1964: o pacto do com Deus e o Diabo
A síntese entre os opostos, caracterizada pelo barroco, irrompe como linguagem no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol; inquietude que se esforça para encontrar uma justificativa entre a razão e a fé, entre a graça e o livre arbítrio, entre a determinação da vontade e a paixão; algo que funciona como pedaço de um negativo; metonímia revolucionária que fotografa o destino trágico de personagens presos pela mesma fatalidade, dentro e fora do universo fílmico. Espécie de liberação do inconsciente coletivo do camponês brasileiro, do terceiro mundo. Estética que Glauber entendia como grito, rouco, mas original, de uma cinematografia crítica que se desloca através de um tempo circular, denso, trágico; onde o homem se constitui como um “títere” no palco do mundo, nas mãos de um deus negro e de um diabo loiro; do clero e do coronelismo. Sentimento de grandeza e esplendor travestido pela angústia interior que cada sertanejo leva consigo; lugar onde virtude e pecado se misturam ao êxtase católico de uma desarmonia sempre paradoxal: a morte é vida, a vida é sonho, o prazer é a escravidão, a penitência, a salvação.
A mise-en-scène em Deus e o Diabo funciona, de inicio, como literatura de cordel que pouco a pouco se transforma em ópera pelo contraste dialético profundo que observamos no decorrer do filme; teoria que o próprio Glauber mais tarde chamaria de trialética; ou seja, a solução dos problemas não aconteceria somente na justaposição dos contrários e sim através de sínteses, por outros caminhos na busca de uma melhor apreensão da realidade social; realidade que em Monte Santo foi considerada digna de ser adornada com serenidade e sinceridade, sem dissimulação diante das coisas mais comuns, mas com uma atitude de reverência acolhedora de tudo que pertence a terra e ao homem. Expressão artística que se coloca mais na elegância sóbria do que no artifício retórico. Sobriedade que em Glauber acontece como verdade; um tipo de elegância, que é a transformação mínima da realidade na poesia pedagógica a que se propõe o filme. Intranqüilidade onírica e crítica que se relaciona de maneira direta com o espectador-leitor durante praticamente todas as cenas; movimentos que acabam somente quando os olhos da mente se apropriam de parte do sonhado pelo realizador; ou seja, o filme só termina quando somos preenchidos pelo desafio da transformação dos dados essenciais do homem: o amor, o ódio, o mito, a violência, o esmagamento da estrutura agrária, a seca. Vertigem em preto e branco pelos confins da Bahia; composições ondulantes que se chocam sob a harmonia musical e apocalíptica de Sérgio Ricardo. Sentimento grandioso orientado pelo espaço e pelo tempo; lugar onde repousa o barroco e sua importância revolucionária sobre o ponto de vista ideológico. Visão que se enquadra através de uma realidade pobre e banal; ângulos que conferem uma grandiosidade épica, de planos vastos, das tomadas panorâmicas, com a câmera em movimentos dinâmicos. Correria louca de Manoel e Rosa do sertão para ao mar.
Toda essa ostentação visual e inclinação operística para a pompa e para os efeitos espetaculares em Deus e o Diabo, não estava longe os efeitos da igreja católica e do Concílio de Trento, ao usar formas sofisticadas do barroco (delírio decorativo, tendência para a monumentalidade, cultivo das grandes massas corais ou sonoras, horror ao vazio, profusão desordenada de formas ornamentais) para facilitar a missão da ideologia da Contra-Reforma. Extraordinária capacidade de assimilação e reflexão que se manifestou em Glauber através de sua quase inexaurível vitalidade artística.


- As conexões literárias
O filme consegue, positivamente, canalizar seus interesses ideológicos mostrando o paradoxo divino como algo superior ao raciocínio humano. Inquietude que se esforça por encontrar equilíbrio entre a razão e a fé, a graça e o livre arbítrio, a determinação da vontade e a paixão. Algo que reflete um estilo que se caracteriza pelo contraste entre a crença (masoquismo penitente) e a realização (utopia). Espécie de mística materialista que desce do céu para organizar a terra e desarmar os possuídos.
Talvez, pelo aspecto alienante e trágico que veste cada personagem em Deus e o Diabo, pudéssemos criar uma relação comparativa entre a arte de Glauber (pela influência de José Lins do Rego11) e o emblemático Dom Quixote do escritor Miguel de Cervantes12. Sentimento que aproxima um brasileiro de um espanhol justamente pela relação estilística; de gosto definitivamente barroco. Juntos, penetraram na complexidade da alma humana e a imortalizaram em seus retratos paradoxais por meio de interpretações mitológicas: Corisco e Dom Quixote, Sancho e Manoel; ainda que tenham conservado aqueles elementos que eram verdadeiramente poéticos para apresentar o mito de uma forma critica, “irônica” e sugestiva, também usaram a visão natural e a recordação histórica para evocar as distâncias no espaço e no tempo; para dar noção de sentimento e de grandeza, na ordem política e militar. Artistas que experimentaram em suas obras o efeito psicológico de luz e silêncio, Glauber e Cervantes nos permitem entender a arte barroca como arauto da Idade Moderna que reverberou de maneira grandiosa no Cinema Novo. Fenômeno que coloca Dom Quixote frente a frente com Deus e com o Diabo.
Nas duas obras, a moral do fracasso em busca da redenção está condicionada por uma interpretação semelhante, que podemos identificar tanto em Dom Quixote quanto no Beato Sebastião. Em ambos os casos, tais personagens são movidos pelo delírio profético, premonitório, de um oásis imaginário que surgiria muito em breve; cavaleiros da justiça que, como Corisco, partiram em busca de uma mudança; seja orientada pela força de São Jorge em Monte Santo, seja pela lança erguida em La Mancha; “filósofos” levados pelo misticismo e pela rebeldia anárquica de um mundo que os reprime; cada um dentro de seu universo; cada um com sua cruz; cada qual com seu discípulo: Sancho e Manoel respectivamente; cegueira e alienação que se renderam à fantasia do absurdo; espécie de linha fronteiriça desenhada entre a sensatez e a demência que nos coloca diante de um paradoxo existencial, mas dialético nas duas obras.
O curioso é que podemos entender a grande descoberta tanto de Cervantes quanto Glauber como um quadro barroco em que a moldura parece antes recortar um panorama que poderia sem dúvida estender-se em todas as direções. A primeira parte da história de Dom Quixote não termina com a sua morte; a moldura construída de maneira arbitrária com a apoteose da pluma do autor, não impede que a ação continue, uma vez que esta aparece em suspenso e aberta para a segunda parte. Do mesmo modo, Deus e o Diabo, é o desenvolvimento natural de Terra em Transe; que começa onde o outro termina: no mar; espécie de metáfora da liberdade; e culmina com a morte do poeta Paulo Martins; tipo que poderíamos ligar a Dom Quixote pela instabilidade de sua consciência e pela decepção física e moral que o acompanha até o final da história; fracasso que mais tarde o levaria a morte; final trágico que também liga esses dois personagens.
A aproximação das duas obras está exatamente no reconhecimento da literatura e da cinematografia como legítimo, porque ambas se vêem relacionadas com as formas de arte histórica. Cada uma destas formas pode ser chamada de barroca, porque cada uma é a expressão da mesma visão interior compartilhada pelo cineasta e pelo escritor, de maneira semelhante. Algo que não deixa de sofrer em nossa mente, transformações, interpretações, metamorfoses e disfarces, como a vida de todo herói barroco há de experimentar. Dom Quixote (refiro-me ao livro) e Deus e o Diabo na Terra do Sol conseguem trazer, indiscutivelmente, ao historiador, uma relação viva com as imagens citadas e projetadas tanto no livro quanto no filme. Algo sempre repleto de tensão e significado. Espécie de locução que não indica de imediato uma direção clara do pensamento; comparável às escadas barrocas que voam em direção de perspectivas inseguras e sonhadoras.
O valor universal de D. Quixote e Deus e Diabo na Terra do Sol se apóiam justamente no fato de que nenhuma interpretação histórica e estilística chega a esgotar a profundidade em cada uma das obras, e que cada historiador deve aproximar-se de cada uma delas com uma atitude diferente e original. A multiplicidade de sentidos procedentes e o cenário épico apropriado à captação da tragédia do homem e dos seus conflitos contribuem de maneira única tanto para literatura quanto para cinematografia mundial. Quixote passa o dia e a noite submerso na leitura de romances de cavalaria, perde a razão, se julga cavaleiro andante, sai ao encontro de muitas aventuras, cada uma mais absurda, e, por fim, no leito de morte, arrepende-se de haver desperdiçado sua vida e se extraviado por influência das leituras. Em Deus e o Diabo, Manoel, pobre vaqueiro, foge com sua mulher Rosa após assassinar o patrão explorador, envolvendo-se com beatos e cangaceiros. Nessas duas obras a retórica barroca, na sua avidez de reunir material expressivo para a vastidão de significados que agregam, se propõe aglomerar as figuras mais complexas no repertório estilístico. Escolhas que prevalecem o empenho de submeter à poesia à jurisdição de uma realidade velada pela instabilidade semântica e cênica, tanto em Monte Santo quanto em La Mancha.
O emprego de hierarquias estilísticas, extravagantemente dinamizadoras, permitiu uma linguagem apropriada à visão barroca desses dois artistas. Situação que compreende a priori ao fato estético: uma interrogação repleta de fascínio e pânico em face do limite que vai afrontar. Impossível, pois programar um conteúdo. Este se vai fazendo em cada um deles; e tem a duração da capacidade do sujeito para afrontar o ilimite (a morte). Daí a concepção barroca, em ambas as obras, de figuras estilísticas abertas, dinâmicas, essencialmente válidas e não decorativas.
Para Glauber essa liberdade de assumir uma consciência possível sustentada no plano prático de uma concepção estética dessa natureza – teoria da “Obra aberta” consagrada no livro (1962) de Umberto Eco, já fora, na verdade, uma conquista das vanguardas do séc XX, esboçadas desde as idéias dos dadaístas e de Marcel Duchamp13 – seria levar adiante, como conseqüência natural, um projeto cinematográfico centrado no problema da linguagem, esquematizando na conhecida fórmula, um dos tópicos da poesia pós-simbolista do ocidente: não importa o que se diz, se se sabe como se diz. Compreende-se, assim, o progressivo afastamento de Glauber de categorias como argumento, enredo, intriga, encadeamento lógico, trama, continuidade linear, ordenamento psicológico, etc., tudo isso supresso em favor da criação de formas livres.
Escolha que justifique, talvez, a sua escolha pelo barroco; que “se opõe” justamente a essas questões. Do mesmo modo, desde sua publicação em 1605, a influência de “Dom Quixote” na narrativa ocidental tem sido cada vez maior; poderíamos dizer que, sobretudo a partir do século 18, foi ganhando um pouco mais de atualidade a cada dia.
Logo, os maiores nomes da criação novelística posteriores a Cervantes confessaram a sua dívida com este texto inesgotável. Muitos personagens célebres da ficção moderna, além dos conferidos em Deus e o Diabo, têm traços comuns a D. Quixote: os protagonistas de “O processo” e “O castelo”, de Kafka14, e os de “Lord Jim”, de Conrad15. A multiplicidade de sentidos sem precedentes e o cintilar desses romances são, junto ao humor de Cervantes e sua descoberta da perfeita prosa narrativa, sua contribuição realmente única para a literatura mundial através do perspectivismo barroco.
Diante disso, a aproximação histórica de Cervantes e Glauber pode ser traduzida pelo drama barroco de suas obras; busca de uma linguagem que tivesse uma correlação com necessidades interiores e sociais, a partir de um vocabulário muitas vezes inadequado e incompreensível. Pinturas que saem dos quadros e permanecem em sensível deslocamento; quase sempre em situação espiritual de oposições e contrastes; formas, sugestões e emoções provenientes de diversas direções; dilatação que originará uma linguagem comum e de grande força centrípeta em todas as comunidades de nova formação histórico-cultural, espalhadas pelo mundo.
Ao realizar este estudo estilístico comparativo, me baseei em conceitos comuns tanto em Deus e Diabo na Terra do Sol quanto em D. Quixote; estes conceitos comuns e sua execução similar refletem sobre uma interpretação semelhante, que impelia os dois artistas “a perceberem as coisas da mesma forma” e, por conseguinte, a descobrimentos artísticos paralelos, que aqui chamamos de barroco. Elemento que mais fomenta e corrobora esta proposição de uma afinidade particular entre os dois criadores; vivacidade que desfrutamos em suas respectivas obras; particularidades que ganham um outro contorno analítico; testemunhando uma nova aproximação histórica mediada pela estética.








Conclusão

Longe de buscar conclusões apressadas, tentamos sugerir ao longo deste trabalho, possibilidades das mais variadas de apreensão analítica do cinema como fonte histórica; do pensamento socio-político ao linguístico (através da Semiologia e da Filologia); da razão, a revolução; do ético ao estético.
Sem tentar imobilizar um sentido único no resultado final de nosso pensamento, trabalhamos com a hipótese de uma avaliação circuscrita pela mensagem estética; ou seja, o produto artístico; aquele que provoca a sensação, o conhecimento, à liberdade de constituir os pensamentos, de vestí-los e de fazê-los falar historicamente. Câmera aberta que se baseia numa dialética entre aceitação e repúdio dos códigos léxicos do remetente (nesse caso do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol) – de um lado – e introdução e repulsa de códigos e léxicos pessoais (do historiador-autor), de outro. Dialética entre fidelidade e liberdade interpretativa que, se por um lado, permitem ao leitor captar os convites da ambiguidade da mensagem e preecher de forma incerta com códigos próprios, de outro, é reconduzido pelas relações contextuais (histórica, sociológica, antropológica, psicanalítica, filosófica, literária e não somente política) a ver a mensagem tal como foi construída, num ato de fidelidade ao historiador-cineasta e à época em que essa mensagem foi emitida.
O nosso estudo não termina aqui. É preciso que se entenda tal discussão como um processo que requer novas experiências científicas; desenhadas, evidendemente, por uma atividade de pesquisa que nos permita encontar solo fértil no imprevisível mundo das descobertas. O Cinema e a História devem ser apreendidos sempre pela congruência; que é luta da humanidade pela liberdade, a grande luta do homem contra a opressão rumo à liberdade, contra o subdesenvolvimento cultural, e sempre em favor de uma ruptura paradigmática de investigação. Na ciência, como na arte, encontramos o uso da experimentação e da intuição. O cientista se baseia no provável, enquanto o artista e o cienasta se baseiam no improvável, mas não é uma oposição de caráter metafísico. Portanto, o futuro da civilização brasileira dependerá também da instrumentalização dialética do seu cinema e da sua história. Ambos não como arte acadêmica, mas instrumento de expressão e informação ao alcance da produção e do consumo de cada um.



Notas



1Ferro, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1992.

2 Idem p.84.

3 Ibidem p.86.

4 Ibidem p. 87.

5 Ibidem p. 76.


6 Ibidem p. 76.


7 Ibidem p. 76.


8 Ibidem p. 86.


9 Ibidem p.80.


10 Ibidem p.88.


13 Paz, Octavio. Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza; tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo. Editora Perspectiva, 1979.


14 Kafka, Franz. O Castelo; prefácio e tradução de Torrieri Guimarães.São Paulo. Edições TEMA, 2000.


15 Conrad, Joseph. Lord Jim; tradução de Mário Quintana. São Paulo. Abril Cultural, 1971.






Bibliografia


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· LINS DO REGO, José. Cangaceiros. 8ªed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1982.

· MAUAD, Ana Maria. “As três Américas de Carmem Miranda: cultura política e cinema no contexto da política da boa vizinhança”, IN: Transit Circle: Revista Brasileira de Estudos Americanos, vol.1, Nova Série, 2002, Rio de Janeiro: Contra-Capa/ABEA.

· PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. História ilustrada dos filmes brasileiros (1929-1988). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.

· SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Guerras e cinema: um encontro no tempo presente”, In: Tempo vol.8, n 6, jan-jul, 2004.

· ECO, Humberto. Como se faz uma tese. 18ª ed. São Paulo. Editora Perspactiva S.A, 2002.

· XAVIER, Ismail. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Brasiliense/Embrafilme, 1983.

terça-feira, julho 11, 2006

Proust. Sobre "Um Amor de Swann"



“A equação proustiana nunca é simples. O desconhecido, escolhendo suas armas de um manancial de valores, é também o incognoscível”.

SAMUEL BECKETT


Calemo-nos diante de algo que nos permita um encontro com o saber. Algo que se desenha como energia dolorosa, profunda, confusa, intermediária; marca vital, absoluta a que chamamos de amor. É como se, mergulhando no tempo, encontrássemos em Marcel Proust – através do conto “Um amor de Swann” – uma disposição erudita, subjetiva; uma preocupação em elucidar um comportamento indefinível, subconsciente, mapeado, evidentemente, por um sentimento íntimo, porém incompatível. É pelo contraste que o estado amoroso se constrói de prazer e de dor, de veneração e desprezo, de temor e de interesse. Tal impulso orienta o nosso olhar lânguido e confuso pelas linhas aristocráticas de um escritor cujo saber filosófico vai além de Swann e de Odette, de Forcheville e dos Verdurin; enfim, de qualquer personagem. O retrato de sua obra nos assalta pela idéia de brindarmos a complexidade de uma descoberta a ser descoberta; não pela angústia intermitente a que somos expostos durante a leitura, mas por entre portas que se abrem, todas sem respostas, em todo o desenrolar da história. Uma cronologia difícil, wagneriana; pela capacidade de traduzir, através de gradações sutis, tudo o que existe de excessivo, de imenso, de ambicioso no homem espiritual e natural. Examinar Proust, através de Swann, nos permitiria, talvez, considerar metáfora do amor, a sonata de Vinteuil – compositor imaginário – cuja melodia se refere a ela mesma, à sua maneira de ser; espécie de linguagem em que se considera o motivo musical como verdadeira idéia, de outro mundo, de outra ordem; velada de trevas, desconhecida, impenetrável à inteligência. Como observamos nesta passagem:

“Ela logo lhe insinuava peculiares volúpias, que nunca lhe ocorreram antes de ouvi-la, que só ela lhe poderia ensinar, e sentiu por aquela frase como que um amor desconhecido”. 1

A música, neste caso, funciona como elemento catalisador na obra proustiana, sintetizando momentos de privilégio, correndo paralelamente a eles. A aproximação da melodia de Vinteuil nos confessa uma disposição nervosa, sutil, porém apaixonante. Prisão inexorável de Afrodite a qual Swann, amante, se enfeitiçara por Odette.
Marcel Proust nos contamina, sem dúvida, pelo vocabulário complexo e orações intercaladas. Um estilo cansativo, mas que não cansa a mente. Onde o tempo e a memória servem de tempero em cada palavra convertida em paixão, delírio e ciúme. Talvez sua obra nos permita – pelo aspecto intermitente a que julga as faces do amor – uma discussão que se aproxime ao clássico “O banquete” de Platão. Uma experiência procedente mas contrastante a obra proustiana; ancorada por uma complexidade filosófica que liga nossos sentidos por uma série diálogos cuja compreensão só é permitida no exame de cada peça oratória; elo de uma cadeia que termina na solução platônica de elogio sobre aquilo que está em todas as coisas. Como observamos no discurso de Fedro:
“Assim, pois, eu afirmo que o amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”2

Platão, por sua vez, viu no amor uma força vital absoluta, e compreendeu que o caminho do conhecimento deveria passar portanto através dele (o amor) para levar às últimas potências ideais e metafísicas. Logo, observamos em Proust uma interpretação filosófica cujo objeto do amor é justamente o espírito ancorado por um ponto de vista cronológico, sinuoso. Onde somente no esplendor da arte poderá ser decifrado o êxtase perplexo que ele conheceu perante as superfícies insondáveis de uma nuvem, um quadro, uma torre, uma flor, da música, do teatro...; um calabouço de descobertas. Sua “verdade” nos remete a uma estética fria, quase autônoma. Espécie de fisiologia revelada pelo aspecto sensual, descritivo em que veste os seus personagens; vítimas, talvez, de um estilo que priorize a qualidade de uma linguagem que se articula semelhante a um tempo musical de andamentos e movimentos melódicos sempre diferentes; sinfonia abstrata, absoluta, contemplativa mas sempre nostálgica. Miragem elitista onde positivo e negativo se misturam no “jogo” quase epilético de um relativismo intuitivo. Denúncia de um amor volúvel, ao qual Swann, no fim do conto, sentencia com seu desprezo tardio a Odette.
As idéias de Marcel Proust ferem a tolerância de quem não o conhece; mas consegue, ao mesmo tempo, pela imaginação de suas palavras, nos fortalecer na experiência de algo esplendoroso; cirurgia mental que nos liberta.
Notas:

1. PROUST, Marcel. No caminho de Swann; tradução de Mário Quintana. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p.125.



2. PLATÃO. O Banquete; tradução, introdução e notas do Prof. J. Cavalcanti de Souza. 9ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999, p.118.


Referências Bibliográficas:


BECKETT, Samuel. Proust; tradução Arthur Nestrovski. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.


PLATÃO. O Banquete; tradução, introdução e notas do Prof. J. Cavalcanti de Souza. 9ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

SIMMEL, Georg. Filosofia do Amor; tradução de Luís Eduardo de Lima Brandão: revisão da tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Deus e o Diabo na Terra do Sol



A síntese entre os opostos, caracterizada pelo barroco, irrompe como linguagem em Deus e o Diabo na Terra do Sol; inquietude que se esforça para encontrar uma justificativa entre a razão e a fé, entre a graça e o livre arbítrio, entre a determinação da vontade e a paixão; algo que funciona como pedaço de um negativo; metonímia revolucionária que fotografa o destino trágico de personagens presos pela mesma fatalidade, dentro e fora do universo fílmico. Espécie de liberação do inconsciente coletivo do camponês brasileiro, do terceiro mundo. Estética que Glauber entendia como grito, rouco mas original, de uma cinematografia crítica que se desloca através de um tempo circular, denso, trágico; onde o homem se constitui como um “títere” no palco do mundo, nas mãos de um deus negro e de um diabo loiro; do clero e do coronelismo. Sentimento de grandeza e esplendor travestido pela angústia interior que cada sertanejo leva consigo; lugar onde virtude e pecado se misturam ao êxtase católico de uma desarmonia sempre paradoxal: a morte é vida, a vida é sonho, o prazer é a escravidão, a penitência , a salvação.
A mise-en-scène em Deus e o Diabo funciona, de inicio, como literatura de cordel que pouco a pouco se transforma em ópera pelo contraste dialético profundo que observamos no decorrer do filme; teoria que o próprio Glauber mais tarde chamaria de trialética; ou seja, a solução dos problemas não aconteceria somente na justaposição dos contrários e sim através de sínteses, por outros caminhos na busca de uma melhor apreensão da realidade social; realidade que em Monte Santo foi considerada digna de ser adornada com serenidade e sinceridade, sem dissimulação diante das coisas mais comuns, mas com uma atitude de reverência acolhedora de tudo que pertence a terra e o homem. Expressão artística que se coloca mais na elegância sóbria do que no artifício retórico. Sobriedade que em Glauber acontece como verdade; um tipo de elegância, que é a transformação mínima da realidade na poesia pedagógica a que se propõe o filme. Intranqüilidade onírica e crítica que se relaciona de maneira direta com o espectador-leitor durante praticamente todas as cenas; movimentos que acabam somente quando os olhos da mente se apropriam de parte do sonhado pelo realizador; ou seja, o filme só termina quando somos preenchidos pelo desafio da transformação dos dados essenciais do homem: o amor, o ódio, o mito, a violência, o esmagamento da estrutura agrária, a seca. Vertigem em preto e branco pelos confins da Bahia; composições ondulantes que se chocam sob a harmonia musical e apocalíptica de Sérgio Ricardo. Sentimento grandioso orientado pelo espaço e pelo tempo; lugar onde repousa o barroco e sua importância revolucionária sobre o ponto de vista ideológico. Visão que se enquadra através de uma realidade pobre e banal; ângulos que conferem uma grandiosidade épica, de planos vastos, das tomadas panorâmicas, com a câmera em movimentos dinâmicos. Correria louca de Manoel e Rosa do sertão para ao mar.
Toda essa ostentação visual e inclinação operística para a pompa e para os efeitos espetaculares em Deus e o Diabo, não estava longe os efeitos da igreja católica e do Concílio de Trento18, ao usar formas sofisticadas do barroco (delírio decorativo, tendência para a monumentalidade, cultivo das grandes massas corais ou sonoras, horror ao vazio, profusão desordenada de formas ornamentais) para facilitar a missão da ideologia da Contra-Reforma. Extraordinária capacidade de assimilação e reflexão que se manifestou em Glauber através de sua quase inexaurível vitalidade artística.




2.1 – A grandeza espiritual dos personagens:
O filme consegue, positivamente, canalizar seus interesses ideológicos mostrando o paradoxo divino como algo superior ao raciocínio humano. Inquietude que se esforça por encontrar equilíbrio entre a razão e a fé, a graça e o livre arbítrio, a determinação da vontade e a paixão. Algo que reflete um estilo que se caracteriza pelo contraste entre a crença (masoquismo penitente) e a realização (utopia). Espécie de mística materialista que desce do céu para organizar a terra e desarmar os possuídos.
Talvez, pelo aspecto alienante e trágico que veste cada personagem em Deus e o Diabo, pudéssemos criar uma relação comparativa entre a arte de Glauber (pela influência de José Lins do Rego19) e o emblemático Dom Quixote do escritor Miguel de Cervantes20. Sentimento que aproxima um brasileiro de um espanhol justamente pela relação estilística; de gosto definitivamente barroco. Juntos, penetraram na complexidade da alma humana e a imortalizaram em seus retratos paradoxais por meio de interpretações mitológicas: Corisco e Dom Quixote, Sancho e Manoel; ainda que tenham conservado aqueles elementos que eram verdadeiramente poéticos para apresentar o mito de uma forma critica, “irônica” e sugestiva, também usaram a visão natural e a recordação histórica para evocar as distâncias no espaço e no tempo; para dar noção de sentimento e de grandeza, na ordem política e militar. Artistas que experimentaram em suas obras o efeito psicológico de luz e silêncio, Glauber e Cervantes nos permitem entender a arte barroca como arauto da Idade Moderna que reverberou de maneira grandiosa no Cinema Novo. Fenômeno que coloca Dom Quixote frente a frente com Deus e com o Diabo.
Nas duas obras, a moral do fracasso em busca da redenção está condicionada por uma interpretação semelhante, que podemos identificar tanto em Dom Quixote quanto no Beato Sebastião. Em ambos os casos, tais personagens são movidos pelo delírio profético, premonitório, de um oásis imaginário que surgiria muito em breve; cavaleiros da justiça que, como Corisco, partiram em busca de uma mudança; seja orientada pela força de São Jorge em Monte Santo, seja pela lança erguida em La Mancha; “filósofos” levados pelo misticismo e pela rebeldia anárquica de um mundo que os reprime; cada um dentro de seu universo; cada um com sua cruz; cada qual com seu discípulo: Sancho e Manoel respectivamente; cegueira e alienação que se renderam à fantasia do absurdo; espécie de linha fronteiriça desenhada entre a sensatez e a demência que nos coloca diante de um paradoxo existencial mas dialético nas duas obras.
O curioso é que podemos entender a grande descoberta tanto de Cervantes quanto Glauber como um quadro barroco em que a moldura parece antes recortar um panorama que poderia sem dúvida estender-se em todas as direções. A primeira parte da história de Dom Quixote não termina com a sua morte; a moldura construída de maneira arbitrária com a apoteose da pluma do autor, não impede que a ação continue, uma vez que esta aparece em suspenso e aberta para a segunda parte. Do mesmo modo, Deus e o Diabo, é o desenvolvimento natural de Terra em Transe; que começa onde o outro termina: no mar; espécie de metáfora da liberdade; e culmina com a morte do poeta Paulo Martins; tipo que poderíamos ligar a Dom Quixote pela instabilidade de sua consciência e pela decepção física e moral que o acompanha até o final da história; fracasso que mais tarde o levaria a morte; final trágico que também liga esses dois personagens.
A aproximação das duas obras está exatamente no reconhecimento da literatura e da cinematografia como legítimo, porque ambas se vêem relacionadas com as formas de arte. Cada uma destas formas pode ser chamada de barroca, porque cada uma é a expressão da mesma visão interior compartilhada pelo cineasta e pelo escritor, de maneira semelhante. Algo que não deixa de sofrer em nossa mente, transformações, interpretações, metamorfoses e disfarces, como a vida de todo herói barroco há de experimentar. Dom Quixote (refiro-me ao livro) e Deus e o Diabo na Terra do Sol conseguem trazer, indiscutivelmente, ao leitor-espectador, uma relação viva com as imagens citadas e projetadas tanto no livro quanto no filme. Algo sempre repleto de tensão e significado. Espécie de locução que não indica de imediato uma direção clara do pensamento; comparável às escadas barrocas que voam em direção de perspectivas inseguras e sonhadoras. Pintura de elementos entrelaçados como poema “À instabilidade das cousas do mundo” de Gregório de Mattos21:


“Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância”.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância”.





2.2 – O herói barroco entre a cegueira e a violência:

Diferentemente do herói épico, que sempre espera um progresso como resultado de suas “aventuras” e que, no decorrer delas, vai ganhando terreno em diversos planos, Dom Quixote e Corisco, ao final de cada uma das suas, se encontram no mesmo lugar, decepcionados moralmente. De um lado, ilusão de individualidade, de outro, animalidade, vazio espiritual; dois aspectos alimentados por uma cegueira mútua, conduzida pela fatalidade que ambos entendem como destino. Cada um fecha os olhos ante a imagem do outro refletido em si mesmo. Juntos, cada um serve de ponto de referência para compreender o outro. Mas quanto melhor se explicam mutuamente, mais clara e radical se torna suas incompatibilidades. A incerteza que respectivamente os define torna impossível à união entre ambos. O destino que os une é o mesmo que os separa. Encerrados os dois no círculo de uma mesma cegueira partida em metades complementares, deixam patente um mundo incompatível consigo mesmo; um mundo em profunda tensão.
A violência de Corisco não é uma violência “instintiva”, ou como diria um moralista, uma expressão de sua natureza animal. A violência de Corisco é monstruosa, isto é, pertence especificamente a um monstro, não ao espírito e a matéria separadamente. É uma violência que, se transforma o homem em animal, também transforma o animal em homem; confusão caótica, mística de um ser diante de um tempo sempre em estado bruto. Cancro social marginalizado que se esconde atrás de uma rebeldia anárquica; de duas cabeças: Corisco é Lampião, Lampião é Corisco; anverso e reverso de uma mesma moeda. Relação entre o corpo e sua alma (metáfora do corpo) que se encontram ao redor de uma natureza caótica, ameaçadora; cenário sempre áspero e homogêneo nas privações que se impõe os antagonismos de Glauber. Talvez o que o cineasta nos sugere nesta passagem de Deus e o Diabo não seja uma igualdade teórica entre ambas as personagens (Corisco e Lampião) representadas ao mesmo tempo; igualdade essa que se tornaria tão simplista e dogmática como a diferença estabelecida pelo espectador; mas duas faces incompatíveis da mesma coisa. Glauber não nos diz que Corisco é igual a Lampião, mas que Corisco e Lampião são duas faces de uma mesma coisa. O destino faz ilusórias as diferenças, mas é a violência do destino que as cria.
Tão ilusório é o consolo interior experimentado por Corisco no meio desse caos sem lei e sem caminhos quão ilusórios são a liberdade, a lei e os caminhos descobertos pelo “viajante” (duplo sentido) Dom Quixote. Tanto num caso quanto no outro o individuo permanece isolado, nu e solitário em meio a mundo alheio; mundo que não lhe pertence e no qual ele vê apenas o que não pode ver dentro de si mesmo. Filhos da violência; diante deles a verdadeira natureza, espelho do ser, cobre-se com um véu e permanece muda. É mudez do ser, da natureza-ser, que submerge desse “eu” recém-nascido e violento num mundo de espelhismo, num profundo sonho cheio de sombras e quimeras.
Se por um lado o neobarroquismo de Glauber (se assim podemos conceitua-lo) evoca bravura, misticismo, natureza hostil, heroicização popular, marginalização e atraso social – como fragmentos de filmografia que se assenta em bases literárias Sólidas22 e que se fundem a leituras da Bíblia (Antigo Testamento), – Cervantes cria um novo sentido da vida aceitando todas as suas tensões cristãs. Ele o faz substituindo os ornamentos extravagantes por um sólido e novo conteúdo; fenômeno que extrai da verdadeira filosofia da vida e germina através do autêntico Barroco: o Barroco espanhol, o de Velázquez23, o impressionista, o barroco fecundo. Tais paralelos estruturais e estilísticos nos oferecem elementos suficientes e adequados para caracterizar, com mais precisão do que até agora nos era possível, o diferente tratamento que o Barroco de Cervantes e o de Glauber dão a recursos análogos. Estas diferenças podem ser reunidas sob uma série de amostras e notas características:

O barroco de Cervantes
Impressionista
Honesto
Elevado
Claro (relativamente)
Poesia na vida
Desornamentado
Humorítico realista
Comunicação efetiva
Contarste de problemas vitais
Verossimilhança levada ao heróico num fundo realista
O barroco de Glauber
Vulcão
Emocional
Perturbador
Alegórico Trágico
Frenético
Pulsões do inconsciente
Excepcionalidade
Rupturas e discordâncias narrativasDelírio cadenciado pela música/ cinema ritualista
Transparência e opacidade se misturam como algo trágico e ao mesmo tempo festivo; sintoma que se materializa em função de um jogo extremamente alegórico. Tabuleiro de xadrez racional e metafísico onde o cavaleiro enfrenta Deus e o Diabo.
Vimos que uma das pontes mais convincentes que servem, talvez, para se conectar ao estilo de Glauber e Quixote é o barroco de “violentos contrastes;“tempo” visto como um estado de fluxo contínuo e a morte como um processo de decadência; algo que cria uma perspectiva em que a morte e a corrupção da carne dominam a realidade; movimento incessante e repetitivo das partículas menores possíveis tanto em La Mancha quanto em Monte Santo; fluxo que torna constante a desintegração do homem em pó e lágrimas. Como observamos nas passagens abaixo:

Corisco
“Tenho medo de viver sonhando com a luz de bala que joguei em cima do bom e do ruim. Tenho medo do inferno e das alma penada que cortei com meu punhal. Tenho medo de ficar triste e sozinho como um gado berrando pro sol. Tenho medo Cristino. Tenho medo da escuridão da morte”25.


Dom Quixote
“A misericórdia divina desceu sobre mim, apesar de todos os meus erros. (...). Agora compreendo os disparates que pratiquei, levados pelos livros de cavalaria. Errei, errei, errei. E eu gostaria que a minha morte fizesse esquecer as minhas loucuras”24.


A descrença do homem e a relativização religiosa em cada uma dessas passagens, instauraram nesses dois personagens uma visão transitória do mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade do festejo (crença) como alienação social e afirmação política. Logo, a máscara tanto em Deus e Diabo quanto em Dom Quixote é, por isso mesmo, simultaneamente trágica e festiva como a vida; artifício do engano e do desengano; jogo poético que consegue apresentar os elementos como formas artísticas distintas e originais.

2.3 – O universalismo barroco de Glauber e Cervantes:
O valor universal de D. Quixote e Deus e Diabo na Terra do Sol se apóiam justamente no fato de que nenhuma interpretação chega a esgotar a profundidade em cada uma das obras, e que cada um pode aproximar-se de cada uma delas com uma atitude diferente e original (conforme observado anteriormente). A multiplicidade de sentidos procedentes e o cenário épico apropriado à captação da tragédia do homem e dos seus conflitos contribuem de maneira única tanto para literatura quanto para cinematografia mundial. Quixote passa o dia e a noite submerso na leitura de romances de cavalaria, perde a razão, se julga cavaleiro andante, sai ao encontro de muitas aventuras, cada uma mais absurda, e, por fim, no leito de morte, arrepende-se de haver desperdiçado sua vida e se extraviado por influência das leituras. Em Deus e o Diabo, Manoel, pobre vaqueiro, foge com sua mulher Rosa após assassinar o patrão explorador, envolvendo-se com beatos e cangaceiros. Nessas duas obras a retórica barroca, na sua avidez de reunir material expressivo para a vastidão de significados que agregam, se propõe aglomerar as figuras mais complexas no repertório estilístico. Escolhas que prevalecem o empenho de submeter à poesia à jurisdição de uma realidade velada pela instabilidade semântica e cênica, tanto em Monte Santo quanto em La Mancha.
O emprego de hierarquias estilísticas (visto no quadro em 2.2), extravagantemente dinamizadoras, permitiu uma linguagem apropriada à visão barroca desses dois artistas. Situação que compreende a priori ao fato estético: uma interrogação repleta de fascínio e pânico em face do limite que vai afrontar. Impossível, pois programar um conteúdo. Este se vai fazendo em cada um deles; e tem a duração da capacidade do sujeito para afrontar o ilimite (a morte). Daí a concepção barroca, em ambas as obras, de figuras estilísticas abertas, dinâmicas, essencialmente válidas e não decorativas.
Para Glauber essa liberdade de assumir uma consciência possível sustentada no plano prático de uma concepção estética dessa natureza – teoria da “Obra aberta” consagrada no livro (1962) de Umberto Eco, já fora, na verdade, uma conquista das vanguardas do séc XX, esboçadas desde as idéias dos dadaístas e de Marcel Duchamp26 – seria levar adiante, como conseqüência natural, um projeto cinematográfico centrado no problema da linguagem, esquematizando na conhecida fórmula, um dos tópicos da poesia pós-simbolista do ocidente: não importa o que se diz, se se sabe como se diz. Compreende-se, assim, o progressivo afastamento de Glauber de categorias como história, argumento, enredo, intriga, encadeamento lógico, trama, continuidade linear, ordenamento psicológico, etc., tudo isso supresso em favor da criação de formas livres. Escolha que justifique, talvez, a sua escolha pelo barroco; que “se opõe” justamente a essas questões. Do mesmo modo, desde sua publicação em 1605, a influência de “Dom Quixote” na narrativa ocidental tem sido cada vez maior; poderíamos dizer que, sobretudo a partir do século 18, foi ganhando um pouco mais de atualidade a cada dia.
Logo, os maiores nomes da criação novelística posteriores a Cervantes confessaram a sua divida com este texto inesgotável. Muitos personagens célebres da ficção moderna, além dos conferidos em Deus e o Diabo, têm traços comuns a D. Quixote: os protagonistas de “O processo” e “O castelo”, de Kafka27, e os de “Lord Jim”, de Conrad28. A multiplicidade de sentidos sem precedentes e o cintilar desses romances são, junto ao humor de Cervantes e sua descoberta da perfeita prosa narrativa, sua contribuição realmente única para a literatura mundial através do perspectivismo barroco.
Diante disso, a aproximação entre Cervantes e Glauber pode ser traduzida pelo drama barroco de suas obras; busca de uma linguagem que tivesse uma correlação com necessidades interiores e sociais, a partir de um vocabulário muitas vezes inadequado e incompreensível. Pinturas que saem dos quadros e permanecem em sensível deslocamento; quase sempre em situação espiritual de oposições e contrastes; formas, sugestões e emoções provenientes de diversas direções; dilatação que originará uma linguagem comum e de grande força centrípeta em todas as comunidades de nova formação cultural, espalhadas pelo mundo. Ao realizar este estudo estilístico comparativo, me baseei em conceitos comuns tanto em Deus e Diabo na Terra do Sol quanto em D. Quixote; estes conceitos comuns e sua execução similar refletem sobre uma interpretação semelhante, que impelia os dois artistas “a perceberem as coisas da mesma forma” e, por conseguinte, a descobrimentos artísticos paralelos, que aqui chamamos de barroco. Elemento que mais fomenta e corroboram esta proposição de uma afinidade particular entre os dois criadores; vivacidade que desfrutamos em suas respectivas obras.

Notas
18Celebrada no tempo do sumo Pontífice Paulo III, em 07 de janeiro do ano do Senhor de 1546. Assunto doutrinário, disciplinar. Decreto de vida e outras atitudes que devem ser observadas no Concilio: O sacrossanto concílio Tridentino, congregado legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos mesmos três legados da Sé Apostólica, reconhecendo como o bem aventurado apostolo São Tiago que toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito vem do céu e desce do Pai das Luzes, que concede com abundância a sabedoria a todos os que a pedirem, sem se incomodar com sua ignorância; e sabendo também que o princípio da sabedoria é o temor de Deus, resolveu exortar a todos a cada um dos fiéis cristãos congregados em Trento, que o fazem agora os exorta que procurem emendar-se dos seus erros e pecados cometidos até o presente, e procedam daqui para frente com temor a Deus sem condescender aos desejos da carne, preservando como possa cada um, na oração e confessando freqüentemente, comungando, freqüentando as igrejas e enfim, cumprindo os preceitos divinos, e pedindo também deste Deus, todos os dias, em suas orações particulares, pela paz dos príncipes cristãos e pela unidade da igreja.

19José Lins do Rego, jornalista, romancista, cronista e memorialista, nasceu no Engenho Corredor, Pilar, PB, em 3 de julho de 1901, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de setembro de 1957. Sua obra, mostra o subdesenvolvimento do meio rural convivendo com o relativo progresso urbano, a luta do bem contra o mal, o misticismo dos beatos e a violência dos cangaceiros, a seca persistindo entre os hiatos da terra reverdecida pela benção das chuvas esporádicas, a cruz e o punhal, a amargura do êxodo, o conflito entre a terra e o homem, gerando o fanatismo, a revolta ou a submissão fatalista, no meio da qual emergiam os lideres messiânicos, condutores das almas resignadas. Ingredientes humanos e paisagísticos que Glauber pouco depois assimilaria e rearrumaria em Deus e o Diabo na Terra do Sol. A proximidade da obra de José Lins com D.Quixote viria na Segunda Fase do Modernismo através da triste figura da personagem Capitão Vitorino, em Fogo Morto.

20O terceiro de cinco filhos de um cirurgião itinerante e de uma nobre empobrecida, Miguel de Cervantes Saavedra, nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, em 1547, e morreu em Madrid em 1616. Iniciou sua carreira de escritor quase no mesmo momento que Filipe II instalou sua corte e que o espesso véu da inquisição se adensava ainda mais sobre as terras castelhanas. Sua obra Dom Quixote se constitui como um marco na literatura universal; utopia que abarca o enigma da vida nas suas limitações, grandiosidade e vastos horizontes. A fé em algo eterno e transcendente. Sobre isso ver: Cervantes, Miguel. Dom Quixote; texto em português de Orígenes Lessa. Rio de Janeiro. Editora Tecnoprint, 1971.

21Gregório de Matos e Guerra, poeta baiano nascido em 1636(?) e morto em 1696, denuncia com sua obra o perfil tenso e dividido do povo brasileiro. Com sua produção literária o poeta cria situações desconfortáveis aos poderosos da época, que passam a combatê-lo até transformar sua vida em um verdadeiro inferno.O poema “À instabilidade das cousas do mundo” nos ajuda a entender o pensamento barroco-cinematográfico de Glauber como algo que sobre filtrar muitos bem os ingredientes que Gregório já utilizara, tendo como base à raiz popular. Sobre isso ver: MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Org. José Miguel Wisnik. São Paulo: Cultrix,
s. d.

22O pintor espanhol Diego Rodríguez de Silva Velàzquez (1599-1660) cujo naturalismo barroco permitiu-lhe captar, como ninguém, o que via. Era dotado de uma portentosa capacidade para traçar as pinceladas exatas, com as quantidades de pigmentos justas, a fim de produzir o efeito pretendido. Poderíamos aproximá-lo a Cervantes e ao mesmo tempo a Glauber pela característica inerente ao três de deslocar o interesse pelos mistérios divinos para a psicologia humana.

23Dom Quixote; texto em português de Orígenes Lessa. Rio de Janeiro. Editora Tecnoprint, 1971, 204.

24Fala de Corisco extraída do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sobre o filme ver: Avellar, José Carlos. Deus e o Diabo na Terra do Sol. A linha reta, o melaço decana e o retrato do artista quando jovem. Rio de Janeiro. Rocco, 1995.

25Paz, Octavio. Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza; tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo. Editora Perspectiva, 1979.

26O escritor Theco Franz Kafka (1883-1924) evoca , em seus romances (O castelo, O processo..), um homem alienado e oprimido pelo Estado, pela família, pela justiça... . Fenômeno que nos permite aproximá-lo as questões observadas neste trabalho não somente como apoio mas com referência de um dos principais especialistas e sua visão sobre o humanismo ocidental. Sobre isso ver: Kafka, Franz. O Processo; prefácio e tradução de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro. Ediouro, 2000. Ver também: Kafka, Franz. O Castelo; prefácio e tradução de Torrieri Guimarães.São Paulo. Edições TEMA, 2000.
27Jóseph Teodor Konrad Korzeniowski (1857-1924) escritor ucraniano que mais tarde, por conseguir cidadania inglesa, passaria a se chamar Joseph Conrad nos ajuda a entender “Lord Jim” como um verdadeiro “maremoto” intelectual; arrependimento de um jovem que comete uma falha em um naufrágio e passa a vida inteira querendo esquecê-la. Conrad incorpora em sua literatura a vida marítima que o sempre acompanhou (ele foi marinheiro da Marinha Mercante Britânica), além de um sentimento de aventura, nostalgia e culpa; aspectos similares a uma literatura quixotesca. Sobre isso ver: Conrad, Joseph. Lord Jim; tradução de Mário Quintana. São Paulo. Abril Cultural, 1971.