segunda-feira, julho 10, 2006

Alice e a Pós-Modernidade








“Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um ponto de vista delirante.”
JEAN BAUDRILLARD

O estilo indecifrável de Lewis Caroll funciona muitas vezes como um sonífero que nos ajuda a participar de idéias, representações, atos que imageticamente ocorrem. O mundo poético, fantástico de sua literatura, onde as idéias estão implícitas e as figuras carregadas de subjetividade, nos faz lembrar do cinema “mágico” de George Méliès ao universo insondável e labiríntico de Jorge Luis Borges. É através da trucagem e da reversibilidade dos signos que seu delírio nos leva a um transe quase que mediúnico. No inicio da sessão, ainda ficamos no escuro. Porém, ao mergulharmos no universo espe(ta)cular e contraditório de Alice, o eclipse se desfaz. A dama de ouro nos serve de coringa em seu “xeque-mate” vitoriano. O enigma em forma de sonho nos move de casa em casa com seus reis, rainhas, animais, até o nada. O vazio do nada, o não-ser potencializa-se, ganha sentido. Sua ficção rebelde, infantil mas erudita nos mostra através de seus personagens e suas proezas mágicas, que sonhar não custa nada. Basta apenas abrir os olhos.
A obra nonsense de Caroll aponta, sem dúvida, para uma série de reflexões. O sonho - fenômeno neurofisiológico - presente nas duas histórias (Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho), nos revela um mundo ininteligível e problemático. A seqüência lógica dos fatos se perde no momento em que todas as coisas são deslocadas de sua verdade, de sua matriz. Logo, o estilo burguês e metafísico aplicado ao clássico pode nos levar a uma leitura um pouco mais conceitual da sociedade contemporânea. O crescimento anômalo de Alice e o bebê que se transforma em porco, nos remete a um desvio; uma espécie de fantasia genética absurda, surrealista. Um estado patológico onde tudo pode ser simulado, programado, modificado estruturalmente. A “morte do tempo absoluto” celebrada pelo chapeleiro louco, dialoga com um possível fim de nossa história pela instantaneidade e onipresença dos acontecimentos. A dimensão linear tempo é interrompida. A contagem já não é mais progressiva. Portanto, temos não apenas o fim de um tempo no futuro, mas também um esgotamento na repetição obsessiva dos acontecimentos do passado. Vivemos sempre a hora do chá; a encenação frenética de todas as coisas que já ocorreram. Só nos resta, então, o movimento repetitivo, cíclico, simbólico do ritual.
“(...) somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca” (Caroll, 2002:63). Tal afirmação do Gato de Cheshire nos reporta Lima Barreto, onde ficção e experiência vivida são aspectos que permeiam o limiar da loucura. Na literatura barretiana, ambas as dimensões estão presentes com grande freqüência e há quem admita ser impossível realizar uma distinção precisa entre uma e outra, tanto quanto o autor se refere a suas internações, quanto descreve a de seus personagens. Este aspecto pode ser observado em seu Diário de Ospício (Barreto, 1993:143), onde o romancista classifica a loucura como algo vivo e plural: “uma porção de coisas diferentes”. O processo conflituoso, contraditório e sintomático observado no diálogo entre Alice e o felino, nos faz pensar na loucura como uma profusão indefinida de todos os valores, de todas as crenças. Uma espécie curto circuito, onde a funcionalidade dos signos assume um esquema fractal, desordenado.
O jogo hipnótico, confuso que se estabelece quando Alice ultrapassa o espelho - em direção a uma “outra imagem” límpida e fria que ali se constrói - nos mostra um processo de alienação e de alteridade. O xadrez imaginário de Caroll reflete uma dimensão paródica, mágica, invertida, que evoca uma espécie de indiferença exótica entre os personagens. A representação especular, grotesca dos irmãos Tweedledum e Tweedledee nos remete a uma espécie de clonagem antecipada, experimental; um movimento duplo e contraditório rumo ao ponto além do qual não poderemos reconhecer nem o humano nem o inumano. Do mesmo modo, a figura de Humpty Dumpty, mutante solitário - com seu estilo imprevisível e pitagórico - representa uma pedagogia vernacular mas vulnerável; metáfora, talvez, de um mundo contemporâneo “obeso” e desequilibrado. Seu formato oval constitui como símbolo de instabilidade e vertigem. Algo pendular, autônomo – como a linguagem – que se move freneticamente entre a fantasia e a realidade. Essa ambigüidade permanente, metamórfica mas enigmática dos personagens em Alice denota Ubu-rei de Alfred Jarry. A peça anárquica e alheia a todas as regras, antecipou o surrealismo, o teatro do absurdo e outros movimentos antiliterários surgidos durante o século XX. O escritor francês, fundador da Patafísica - ciência das soluções imaginárias que estuda as exceções do universo e tudo aquilo que é arbitrário, deslocado - nos faz entender as criaturas de Caroll como algo nem físico (ilusão dos sentidos) nem metafísico (ilusão da mente), mas patafísico. “(...) instrumento irônico de um mundo que apenas imaginamos poder transformar e dominar” (Baudrillard, 61:2001).
Alice definitivamente rompe com a linearidade do tempo e nos coloca diante de um universo lúdico, profético; uma voz “espiralada” que nos liberta da escuridão e nos permite lançar um olhar diferente sobre a pós-modernidade em sua complexidade e ironia. O discurso filosófico, espirituoso de Lewis Caroll, liga nossos sentidos e nos leva para uma outra dimensão. Espécie de catarse glauberiana, utópica. Espécie de Terra em Transe. Poesia épica-didática que jamais será esquecida.





Notas:

1. CAROLL, Lewis. Alice: edição comentada/Lewis Caroll; ilustrações originais, John Tenniell; introdução e notas, Martin Gardner; tradução, Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. P. 63.

2. LIMA BARRETO, Afonso H. de. Diário do hospício; o cemitério dos vivos. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de editoração, 1993. P. 143.

3. BAUDRILLARD, Jean. A ilusão Vital; tradução de Luciano Trigo. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. P 61.






Referências Bibliográficas:

BARTHES, Roland. Mitologias; Tradução de Rita Boungermino e Pedro de Souza. 8ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do Mal: Ensaio sobre os fenômenos extremos; Tradução de Estela dos Santos Abreu. Campinas, SP: Papirus, 1990.

Nenhum comentário: